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Kechiche!

Luiz Carlos Merten

30 de novembro de 2013 | 11h23

Considero-me um privilegiado por ter ido ao Rio e poder ter visto um pouco da seleção da 5.ª Semana dos Realizadores – que não virá a São Paulo porque Lis Kogan, que faz a seleção com Daniel Queiroz, não conseguiu estabelecer uma parceria na cidade. Ela até poderia trazer os filmes – o Arteplex, de Ademar Oliveira, que sediou o evento no Rio, poderia fornecer alguma sala lá -, mas o conceito da Semana não é só a exibição desses filmes com um perfil mais autoral e independente, mas é também, e principalmente, o encontro dos realizadores com o público, o debate, a Q&A. Fiz questão de emplacar uma matéria no Caderno 2, não importa que ela seja pequena – sai amanhã -, porque o registro pode ajudar a que o CineSesc ou o CCBB se interessem no ano que vem. Foi uma semana prodigiosa para mim. Além dos filmes da Semana – interessantes, intrigantes, imperfeitos -, fiz uma série de entrevistas, e algumas já saíram no Caderno 2. Entrevistas ligadas à Semana, e não só. Com Guto Parente, Domingos Oliveira, Júlio Bressane, Spike Lee e Seu Jorge. Voltei a São Paulo e aqui me aguardavam Riccardo Scamarcio, o sr. Valeria Golino, produtor de Miele – a entrevista sai amanhã no Caderno – e, cereja do bolo, a dupla Abdellatif Kechiche/Adèle Exarchopoulos, de Azul É a Cor Mais Quente. Já havia feito uma entrevista de grupo com ele, em Cannes, em maio, pouco antes do anúncio da tríplice Palma de Ouro para La Vie d’Adèle, mas ontem foi outra coisa e eu pude conversar com ele. Às vezes me arrependo de não gravar as entrevistas que faço. Essa, com Kechiche, foi uma das melhores da minha vida. Eu falava – levei adiante uma observação de Tiago Stivaletti – e ele ouvia. Quando parava, Kechiche dizia – ‘Continue, está muito interessante.’ Basicamente, o teor da conversa foi uma tentativa – mútua – de entender o vendaval de acusações e críticas que se seguiu ao triunfo na Croisette. Fui ao ponto. Ao filmar, em Vênus Negra, o olhar sobre os olhares em direção a um corpo de mulher que se degrada, Kechiche não ofendeu a audiência francesa porque a Vênus, afinal, era negra, escrava, e a atriz, uma cubana desconhecida. No caso de Adèle/Azul, seu olhar (de árabe) é sobre a princesa Gaumont, Léa Seydoux, cujo pai e avô são CEOs da poderosa Gaumont. Ne touche pas la femme blanche, advertia Marco Ferreri em seu western contemporâneo, rodado nas ruas de Paris, nos anos 1970. Não degrade a mulher branca. Nossa conversa foi por aí, e Kechiche falou comigo – sobre sexo e condição social – como nenhum outro entrevistado que já cruzei (talvez alguma coisa com o cara de O Mordomo da Casa Branca, o Lee Daniel). Kechiche tem vários projetos em andamento. Desafiei-o. Ele fala que Azul não é sobre homossexualismo, é uma linda e intensa história de amor, mas eu lhe disse que ele, como macho, tem esse olhar curioso, voyeur, sobre duas mulheres, mas seria incapaz de filmar dois homens fazendo sexo. Ele topou o desafio – apertamos as mãos. Disse que gostaria de fazer Adèle Chapitre 3 justamente porque haverá uma cena de sexo entre dois homens e uma mulher, e que os caras vão se pegar. Reforcei meu ponto de vista – sim, mas com uma mulher de intermediação, o que poderá tornar a coisa mais palatável para audiências straights. O próximo filme, muito provavelmente, será um documentário – sobre Marilyn Chambers, a estrela pornô de Atrás da Porta Verde. Menos conhecida, talvez, que a Linda Lovelace de Garganta Profunda, Marilyn provocou uma verdadeira revolução comportamental e social no pornô, a chamada ‘indústria adulta’, como a primeira branca a fazer sexo com um negro frente às câmeras, e isso numa época em que a ‘América’ estava em chamas, na guerra por direitos civis. Esse Kechiche não é mole. Se já gostava dele, gostei mais ainda.

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