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Kazan, sua ode à revolução e meu adeus a Zeffirelli

Luiz Carlos Merten

15 de junho de 2019 | 17h27

Doris, minha ex, veio de Porto Alegre para me apoiar no hospital, após a primeira da nova série de cirurgias (foram duas). Voltou neste fim de semana, fomos ontem ao cinema, Doris, uma das cuidadoras, Ana, e eu. O filme era MIB – Homens de Preto Internacional, sobre o qual precisava escrever para a edição de domingo – amanhã – do C2. Diverti-me com o longa de F. Gary Gray, além de constatar que a franquia sobrevive, e de forma inteligente, a Tommy Lee Jones e Will Jones. Adorei a nova dupla – Chris Hemsworth e Tessa Thompson. Ela é enfezada na questão dos direitos das mulheres. Turbina sua personagem – a agente M – com uma pegada à Mulher-Maravilha e pega junto com Chris, o agente H. É até mais focada que ele, meio metidão, e manipulável pelo traidor dentro da agência (é o novo plot). Passamos duas boas horas no Cinemark do Shopping Eldorado. No outro dia, ao fazer uma pesquisa qualquer, vi que MIB Internacional estava sendo defenestrado. Resolvi conferir. Li a ‘crítica’ de um coleguinha, que até admitia a química do casal de protagonistas, mas também achava a trama confusa. Socorro! Desisti. Na manhã deste sábado, ao zapear na TV paga, vi que o Telecine Cult exibia Viva Zapata! Dei uma vacilada para ver só um pouco, mas o jovem Marlon Brando prendeu meu olho. Que que era o magnetismo daquele cara? Elia Kazan estava certo ao dizer que ele era pansexual. Muitas cenas fortes, intensas, o roteiro engajado – e trotskista – de John Steinbeck, a defesa apaixonada, por Kazan e ele, da revolução permanente. E tem a cena da noite de núpcias, quando Zapata diz à mulher, Josefa, que teme pelo dia seguinte, quando irá a capital para encontrar os líderes da revolução. Analfabeto, sem saber ler nem escrever, ele teme ser enrolado pelos letrados. E pede a Josefa, no leito do amor, quase um lamento, que lhe ensine, ali mesmo, a ler. Fazia tempo que não via a cena – é antológica. Lembrei-me da descrição que dela faz Pauline Kael em seu livro Kiss Kiss, Bang Bang. Vou citar de memória – ‘He askes her to teach him do read (to deflower his virgin mind?)’ Essa simples frase, que li pela primeira vez há mais de 50 anos, me impressionou tanto que nunca a esqueci. Teria visto o filme até o fim, em respeitosa devoção, se meu editor não tivesse chamado para informar que Franco Zeffirelli havia morrido em Roma, pedindo um texto para o online. Zeffirelli e Francesco Rosi foram assistentes de Luchino Visconti em Belíssima, de 1951. Rosi, tornando-se diretor, seguiu uma trajetória admirável, fazendo ‘aquele’ cinema documentado – O Bandido Giuliano, Le Mani sulla Città, O Caso Mattei, etc. Zeffirelli, embora conceituado regista de ópera e cinema, teve uma carreira mais débil e afundou no melodrama. Mesmo assim, tenho de acrescentar que teve seus momentos – os shakespearianos A Megera Domada, formatado para o casal Burton/Taylor, e Romeu e Julieta, sendo o primeiro a usar um casal na flor da idade, Leonard Whiting e Olivia Hussey, para dizer o texto clássico. Vieram depois o (meio) hippie Irmão Sol, Irmã Lua, com as canções de Donovan ajudando a contar a história de São Francisco de Assis; Jesus de Nazaré, sobre o Verbo (divino) e, no qual, com o elenco escolhido, ele fez uma mudança importante, deslocando seu Judas (Robert Powell) para o papel de Cristo; Chá com Mussolini, sua homenagem às ‘tias’, e aqui cabe lembrar que Zeffirelli, gay assumido, era filho ilegítimo, projetando-se na história das cinco damas inglesas que acolhem garoto órfão e lhe dão educação esmerada, e isso na época do fascismo. Cher, Joan Plowright, Judi Dench, Maggie Smith e Lily Tomlin – tiro meu chapéu. Só um talento especial conseguiria reunir essas estrelas e mantê-las pianíssimas, no mesmo tom. E ainda houve Callas Forever, com Fanny Ardant como o diva. Na sua autobiografia, Zeffirelli gaba-se de haver sido amante de Visconti e de haver amado platonicamente a Callas, de cuja intimidade desfrutou. O filme sobre ela é, na verdade, sobre ele, um testamento. Maria Callas está perdendo a voz, mas mantendo intacto o vigor dramático. Vive reclusa, e Jeremy Irons tenta convencê-la a fazer um retorno triunfal na TV, dublando a própria voz. Ela quase cede, mas resiste, seu canto vinha da alma jamais poderá trapacear consigo mesma nem com seu público. Admito que sou meio bobão. Achei que o filme, mesmo embasado em fatos, era muito mais uma confissão de Zeffirelli sobre a própria decadência. Emocionei-me, e Fanny Ardant, no papel, era gloriosa. Além do artista que foi, Zeffirelli foi político – senador da República Italiana pelo partido de (centro)direita de Silvio Berlusconi, Forza Italia. Muito terá de lhe ser perdoado, mas, enfim, vai em paz, cara. Zeffirelli não foi Visconti, nem Bolognini, mas o conjunto da obra tem coisas apreciáveis – e nem falei das óperas filmadas, sua Traviata, de Verdi, com Teresa Stratas e Placido Domingos, um exemplo.

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