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Juanita Moore

Luiz Carlos Merten

02 Janeiro 2014 | 18h24

Nunca me esqueço de que, certa vez, o SBT anunciou no domingo à noite um filme chamado Odeio Minha Mãe. Procurei as informações para os filmes na TV do Caderno 2 e não encontrei nada. Por pura curiosidade, resolvi conferir na hora. Tomei um choque. Era Imitação da Vida, o clássico de Douglas Sirk, cujo título, pelo visto, o programador das emissora – quiçá o próprio Sílvio Santos -, achou que não seria atraente para o grande público e resolveu incrementar, ou apelar. Mas não deixa de haver certa sabedoria nisso. Imitação da Vida é sobre a amizade de duas mães solteiras que se apoiam. Juanita Moore é doméstica de Lana Turner, que investe na carreira de atriz e vira estrela. Até por sua atividade, Lana não tem tempo para a filha, e Sandra Dee é criada pela mãe negra. A própria filha de Juanita, Susan Kohner, tem a pele clara e quer se passar por branca. Rejeita a mãe. O filme termina num funeral grandioso, com Mahalia Jackson entoando spirituals. Oh Lord… Sempre amei Imitação da Vida. Foi o último Sirk e no livro com a entrevista que concedeu a Jon Holliday o grande diretor explicou porque parou com a carreira. Sua série de melodramas fazia dele um dos diretores mais bem sucedidos da Universal, mas Sirk preferiu sair de cena, no auge, porque pressentiu que Hollywood já estava mudando. Não só Hollywood. O mundo. A eclosão da nouvelle vague na França, o embate de autores como Otto Preminger e Elia Kazan por um cinema mais adulto nos EUA. O próprio filme que ele acabara de fazer abordava um tema explosivo, o racismo. Logo-logo, os EUA iam arder em chamas por direitos civis. O suntuoso funeral de Juanita Moore assumiu a dimensão de uma despedida. O fim de uma era. Um adeus. Amo Sirk e não me canso de rever seus melodramas. O meu preferido é Imitação da Vida. E eu agora não consigo me desligar da lembrança do filme. Assisti no começo da tarde a Frozen, que é uma animação bem legal – apesar do excesso de cantoria. Meu editor pediu que eu visse o filme para fazer a crítica na edição de amanhã do Caderno 2. Ao pesquisar o nome da dupla de diretores – Chris Buck e Jennifer Lee -, descobri que o filme estourou mundialmente e já é a segunda maior bilheteria das animações da Disney. São US$ 500 milhões, atrás somente de O Rei Leão. Cheguei na redação e o Bira – Ubiratan Brasil – me pediu que fizesse uma breve dupla sobre… a morte de Juanita Moore. Ela morreu ontem, em casa, em Los Angeles, aos 99 anos. Fez história – foi indicada para o Oscar de coadjuvante e, mesmo não vencendo, como quinta afro-americana a ganhar indicação para o prêmio contribuiu para o reconhecimento do talento dos atores negros. As duas coisas, claro, não estão necessariamente ligadas, mas Frozen bebe no formato tradicional das animações da Disney e, em 1959/60, quando Imitação da Vida arrebentava, Sirk subvertia a tradição e usava as ferramentas do melodrama para refletir, como num espelho, as contradições do sonho americano. A América discriminava, excluía, punia seus negros. Disney acreditava no sonho, nos sentimentos, mas revi outro dia o velho Herbie, Se o Meu Fusca Falasse, de Robert Stevenson, e me diverti muito com a crítica à competitividade. Décadas mais tarde, vivemos numa sociedade competitiva, de mercado. Sem nostalgia nenhuma, a merda que isso representa já estava lá atrás, em Herbie, temperada pela humanidade do carrinho. Misturo demais as coisas, mas tudo me alimenta. E Juanita, a própria razão de ser deste po0st, é uma das minhas lembranças gloriosas no cinema. Quando cai a ficha de Susan Kohner e ela atravessa a multidão correndo e chorando para se agarrar ao caixão da mãe… Sirk era grande. E Juanita Moore foi grande com ele.