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Jovem aos 50, criança aos 30. Eu Te Levo!

Luiz Carlos Merten

10 Abril 2017 | 23h59

Adhemar Oliveira vai se sentir injustiçado, dizer que também tem contas para pagar etc, mas acho um absurdo que, no Frei caneca, os únicos filmes com horários cheios, integrais, são os blockbusters de Hollywood – A Bela e a Fera, A Vigilante do Amanhã. Os brasileiros – e o Carlos Saura, Argentina – estão em um horário ou dois, e quase sempre os mais estapafúrdios. Tenho feito verdadeiras ginásticas para ver, ou rever, os filmes brasileiros nos cinemas. Fui ver o Eu Te Levo, de Marcelo Müller, esse, no Belas Artes. Um horário, 17h40, foi a maior aventura para conseguir. Com todos os defeitos que possa ter, e nem são tantos, achei bem interessante. Me deu curiosidade de ver o que escreveram sobre o filme. A primeira ‘crítica’ que aparece nas ferramentas de pesquisa é da concorrência e diz que o filme tropeça na representação do tédio e entedia. Veio depois a de um desses sites de cinema. O geniozinho, o crítico, diz que o filme não ‘aprofunda’ – quando não é isso, vocês sabem, a forma de desqualificar é dizer que o filme é ‘televisivo’. São definições que, a rigor, não dizem nada, mas eu li. O não aprofunda é de doer. A impressão é que o crítico queria explicações de tudo, reações de causa e efeito, tudo aquilo que se critica na produção massificada de Hollywood é o que esses caras estão cobrando. Sabe aquela coisa do filme que tem buracos que o espectador tem de preencher? Não vale para filmes brasileiros. Eu Te Levo é sobre um carinha da tal geração Y, que se recusa a amadurecer. Jovem aos 50, criança aos 30. O protagonista perde o pai, deveria administrar a loja da família, mas é o momento de se libertar e ele comunica à mãe que quer ser bombeiro. O problema é que, para ser bombeiro, precisa ter treinamento de PM. Romanticamente, o cara quer ser bombeiro para salvar vidas etc, mas tem de aprender a empunhar armas, matar. Anderson Di Rizzi faz Rogério, Rosy Campos é a mãe. Gostei muito das cenas dos dois, achei o dilema do Rogério (o personagem) bem forte e o filme termina bem – olha o spoiler. Eu Te Levo, como Travessia, de João Gabriel, pode muito bem representar uma terceira via para o cinema brasileiro, mas de que jeito – num horário e com a crítica matando, não pelos defeitos, mas pelas qualidades que os filmes têm. Salvador no filme de João Gabriel, Jundiaí no de de Marcelo Müller. Há um cinema brasileiro que quer integrar a cidade, a música. Merece atenção, mas fulaninho ficou entediado e o outro não entendeu os saltos da narrativa. Ah, sim. Tem outra coisa interessante. André Sturm, o Sr. Belas Artes, é secretário Municipal de Cultura – do Dória. O prefeito tem essa birra com grafiteiros. Na entrada do Belas Artes tem aqueles grafites. Arte, gente. Do lado, na entrada da passagem subterrânea, alguém escreveu um texto bem forte. Grafite, de novo. E na abertura de Eu Te Levo tem outro grafite enorme numa parede, com alguma relevância na trama. André Sturm não só programou o filme em seu cinema como o distribui, por meio da Pandora. Isso significa que, embora secretário, ele está na contramão do prefeito? No filme, o grafite é em Jundiaí, então pode, é isso? Mas e o resto? Confesso que ando entediado eu dessa comédia humana.