As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Jornadas épicas

Luiz Carlos Merten

22 de agosto de 2016 | 09h31

Estava agora na padaria – fui tomar café – e vi as imagens do noticiário da Globo, antes do programa de Ana Maria Braga. A movimentação no aeroporto, as delegações que partem, os beijos para a câmera. A próxima Olimpíada, em 2020, será em Tóquio. De novo – Tóquio sediou os Jogos de 1964, filmados por Kon Ichikawa. No alvorecer das novas tecnologias, Ichikawa introduziu a teleobjetiva, e a zoom, como ferramentas de trabalho para captar o mais íntimo das emoções dos atletas. Será que Luchino Visconti viu aquele documentário? O próprio Visconti incorporou a zoom, e ela marcou seus adeus definitivo ao cinema antropomórfico de Rocco e Seus Irmãos. Vieram Vagas Estrelas da Ursa, Os Deuses Malditos. Na cisterna do primeiro, a zoom sobre a imagem invertida do irmão, Jean Sorel, projetada na água do solo. Todo o filme está ali, naquela imagem. Jean Sorel, que havia sido o ragazzo di vita de Mauro Bolognini (e Pier Paolo Pasolini) em Um Dia de Enlouquecer. Volto ao Rio 2016. Foi uma linda festa de encerramento. O carnaval, evitado na abertura, invadiu o Maracanã com carro alegórico e tudo. Marchinhas carnavalescas, as delegações caindo no samba, Rosa Magalhães fez o mundo todo sambar. E os japoneses deram show de técnica, antecipando 2020. O primeiro ministro deles, travestido de Super Mário, atravessou a Terra e irrompeu no centro do estádio. Adorei! Precisávamos, eu precisava desse banho de auto-estima. Tanta canalhice solta, tanta falta de grandeza… E, hoje pela manhã, encerrando o noticiário da Globo, Neymar, filmado de costas, os braços abertos, substituiu o Cristo velando sobre o Rio de Janeiro e o Brasil. Nunca tive muita paciência com Neymar, e até pensava comigo que nunca, never, ele seria melhor do mundo concorrendo com Cristiano Ronaldo e Messi. Só quando os outros se aposentarem, dizia. Neymar foi épico, glorioso, no sábado. Bernardo, outro com quem implicava – por conta de uma entrevista dele que vi, e odiei, pelo que me pareceu oportunismo -, foi o herói do domingo. Azar do Brecht, que deplorava o país que precisa de heróis. A Olimpíada foi uma bela festa. E não adianta dizer que o Brasil está em crise, que precisa de saúde e educação, não de esporte. Precisa de esporte, sim – da superação do esporte. E quem disse que o dinheiro gasto na Olimpíada iria para os hospitais? Queria ver o BRAdesco, patrocinador oficial, que nos inundou de propaganda – e eu sou correntista, sei do que falo -, desistir da publicidade para doar um ambulatório, que fosse. Mas, claro, não é função do banco. A função do banco é o assalto legalizado. Foi o que me fez, durante anos, o Unibanco, da família… Vocês sabem.

Tendências: