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John Sturges, o melodrama e o spaghetti western

Luiz Carlos Merten

14 de abril de 2020 | 11h22

Estou chocado. Estava zapeando ontem à noite, mas na verdade queria chegar ao Telecine Cult, que toda segunda-feira tem aquele horário dedicado aos westerns. Havia feito um destaque, nos filmes nas TV, sobre O Rio das Almas Perdidas e queria (re)ver o filme de Otto Preminger com Robert Mitchum, Marilyn Monroe e Rory Calhoun, mas parei no Curta! e vi os programas do post anterior. Quando terminou o 101 Canções, lá fui eu para o Cult, mesmo sabendo que River of No Return já teria terminado. Não sei nem se passou. Estava começando Sete Homens e Um Destino, a versão de 1960, de John Sturges. Como? Pela revista da Net, a Monet, que uso para fazer os filmes na TV, o programa deveria ser Odisseia no Oeste, um faroeste modesto de William Beaudine, mas, mesmo assim, queria dar uma olhada. Fiquei de cara. Quer dizer que a revista – da Net – que uso como referência me faz uma falseta dessas? Não consegui ficar puto muito tempo, porque logo estava ligado no Sturges. Dizia – ‘Vou ver só um pouquinho’, ‘Mais um pouquinho’. Fiquei siderado até as 2 da manhã. Sempre gostei muito de Sturges como diretor de ação, especialmente de seus westerns. Sete Homens é importante porque iniciou a fase de transposições dos filmes de sabre de Akira Kurosawa para o Velho Oeste. Na sequência vieram o Martin Ritt – Quatro Confissões, baseado em Rashomon – e o Sergio Leone – Por Um Punhado de Dólares, adaptado de Yojimbo. Sete Homens e Um Destino transpõe Os Sete Samurais para a fronteira mexicana. Camponeses contratam mercenários para enfrentar o bando selvagem de Calvera/Eli Wallach, que está pilhando suas colheitas. Sete homens contra 40. Quatro sucumbem, e o próprio Calvera, antes de morrer, pergunta – por que? Por que se sacrificaram por aqueles camponeses que nem estavam pagando direito? Chris/Yul Brynner fala na palavra empenhada. A ética dos pistoleiros. Não devem nada a ninguém, exceto a eles mesmos. O velho/Francisco Roberto de Azevedo fecha a reflexão dizendo que os camponeses estão ligados à terra e os pistoleiros são o vento que passa sobre ela. O tempo e o vento. Cada um daqueles homens tem uma história. O jovem Chico, o alemão Horst Buchholz – num papel de mexicano! -, quer ser um daqueles homens e até se arrisca demais para provar que é destemido, mas é produto daquele meio e aposenta as armas por amor. Bernardo, Charles Bronson, é objeto de admiração de três garotos, que provavelmente cresceriam para ser Chicos, mas ele ensina o trio a ver os pais com outro olhar. As crianças, como haviam prometido, depositam flores na sua sepultura. Sempre achei que Sete Homens e Um Destino, pela dinâmica da ação com a música – trilha de Elmer Bernstein – e pela relativização do heroísmo foi o verdadeiro marco zero do spaghetti western, muito antes de O Dólar Furado e dos Sergios (Leone e Corbucci) que se seguiram na Itália. Fazia tempo que não (re)via o filme. Não mudei de ideia quanto ao spaghetti, mas ontem, pode ter sido pela emoção de ter reviso Duelo ao Sol na retrospectiva de King Vidor na Berlinale – e eu incluí o filme nos Clássicos do Dia -, dei-me conta de uma coisa que me havia passado despercebida. Em Sem Lei, sem Alma e Duelo de Titãs já havia certos elementos de melodrama. A presença das mulheres, o romance condenado de Kirk Douglas e Jo Van Fleet no primeiro. O melodrama é forte nos Sete Homens. A história de amor de Chico e Petra/Rosenda Monteros, o sacrifício de Bernardo e dos demais pistoleiros. Não me lembrava de duas intervenções de Vin/Steve McQueen. Quando ele conta a história absurda do homem que saltou do décimo andar (hein?) e a cada andar dizia ‘Até aqui, tudo bem’ e a do outro, que saltou no cactus (‘Parecia uma boa ideia’), ambas antecipando a resposta à pergunta de Calvera. Chris/Brynner caminha daquele jeito que depois deu origem ao pistoleiro robô de Westworld, de Michael Crichton. Sem Brynner, mas com boa parte desse elenco, Sturges fez depois Fugindo do Inferno, em que McQueen, no lombo da motocicleta, está glorioso. Para fechar a questão do melodrama, o diretor sai-se melhor aqui do que nas vezes em que abordou diretamente o gênero – Quando Explodem as Paixões, O Amor Tudo Vence. Resumindo – sempre gostei daquele Sete Homens e Um Destino, mas agora gostei mais ainda. Só fica pendente a questão da Monet – é confiável?

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