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John Singleton e a força do black cinema

Luiz Carlos Merten

04 de julho de 2019 | 14h19

John Singleton fez história duplamente no Oscar, como primeiro diretor negro indicado para o prêmio da Academia e como mais jovem – ever – a concorrer na categoria de direção. Isso ocorreu em 1991 e tem gente que até hoje acha que a revolução que ele iniciou com Boyz’n’the Hood, Os Donos da Rua, ‘raised an entire generation’ e permitiu que se chegasse este ano ao triunfo de Pantera Negra. Black power! Singleton tinha 24 anos, apenas. Foi indicado como melhor diretor, mas não concorreu a melhor filme. Três anos antes, a América tremera com as arruaças no lançamento de Colors, As Cores da Violência, de Dennis Hopper, que fizeram lembrar a muitos os guetos em chamas na luta por direitos, nos anos 1960. Numa cena forte de Boyz, o jovem negro – Tre/Cuba Gooding Jr. – é arremessado com intensidade na parede pelo policial negro, que segue o protocolo. Negro pobre é suspeito, não há solidariedade racial nas instituições, como a própria sociedade, racistas. Colors já focara essa realidade cruel, mas o diretor, por mais contestador que fosse, era branco. No ano seguinte, em 1889, Spike Lee estourou em Cannes com Faça a Coisa Certa. E, na sequência, houve Boz ‘n’ the Hood. South Central Los Angeles, um caldeirão étnico e social. Nesse quadro, Laurence Fisfhburne interpretava um dos mais icônicos personagens do cinema negro. Num mundo caótico, Furious Styles luta para despertar no filho noções de compaixão e dignidade, e isso era tanto mais importante porque as estatísticas contabilizavam – contabilizam? – altos índices de jovens sem pais nas comunidades negras, e pobres, dos EUA. Havia no centro daquela história um grito por paternidade responsável. John Singleton obteve instantâneo reconhecimento. Seguiu dirigindo, e refletindo sobre a condição do negro. Poetic Justice, com Janet Jackson, O Massacre de Rosewood, com Ving Rhames, o Shaft de Samuel L. Jackson, até chegar, em 2005, a Quatro Irmãos. A transposição do western – Os Filhos de Katie Elder, de Henry Hathaway, com John Wayne e Dean Martin, de 1965 – para a jovem criminalidade urbana. Uma família multirracial (Mark Wahlberg, Tyrese Gibson, Garrett Hedlund, etc), não necessariamente unida por laços de sangue. Os irmãos se reúnem para o enterro da mãe e descobrem que ela foi morta por seu destemor. Num esquema de ação, e em clima ultra-violento – segundo o site Rotten Tomatoes -, o filme retoma o tema da família, e a questão da responsabilidade de Os Donos da Rua. Gostei. Pois estou agora aqui me perguntando onde estava em 28 de abril, quando John Singleton morreu do coração, aos 51 anos, num hospital de Los Angeles. Somente agora descobri sua morte, por meio do belo tributo que lhe fez a revista Empire de junho, à venda, com um pouco de atraso, nas bancas da Av. Paulista. Em 2017, no quadro do #MeToo, ele foi acusado de assédio por uma jornalista a quem concedia entrevista. O caso repercutiu, mas pelo visto não minou sua boa reputação. O funeral reuniu, entre os oradores, Tyrese Gibson, Ice Cube, Taraji P. Henson, Stevie Wonder e até Ryan Cooglar.