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John Hurt, a despedida do ícone gay

Luiz Carlos Merten

29 Janeiro 2017 | 09h49

BELO HORIZONTE – Corro o risco de atrasar, na ida para o aeroporto, mas lá vou eu. Estava subindo para o quarto, depois do café da manhã, quando vi na TV do elevador que morreu John Hurt. John Hurt! Ele pertence a uma geração de grandes atores ingleses que virou pop no cinema. No teatro, fez Shakespeare (claro!), Harold Pinter e outros dramaturgos importantes. No cinema, de cara foi indicado para melhor ator coadjuvante por O Expresso da Meia-Noite, de Alan Parker, e no ano seguinte ‘pariu’ o monstro de Alien, o Oitavo Passageiro, de Ridley Scott. Lembro-me de haver escrito sobre o significado profundo da cena, numa época, ou na época, quando não se sabia que o filme ia virar cult. O alien, máquina de matar perfeita, era gerado pelo ‘homem’, na verdade, um andróide, para ser trazido à Terra e servir de escudo para o stablishment militar. Para combatê-lo, só uma mulher, a oficial Ripley, Sigourney Weaver. Ah, o feminismo. Em Aliens, segundo da série, James Cameron multiplicou os monstros e fez de Ripley a mãe substituta de uma garota órfã. E depois dizem que esse cinema de blockbuster não é feito por autores que também se batem com o ‘sistema’ para impor a visão deles. Mas, enfim, volto a John Hurt. Ele virou pop na série Harry Potter, como Ian McKellen, o Gandalf, também se popularizou em outra série, O Senhor dos Anéis. E ambos eram gays. Assisti a ambos, em coletivas, dizerem que estavam felizes por haver sobrevivido para ver ‘the rise of gay rights’. Neste sentido, e mais até do que ‘sir’ McKellen, John Hurt foi um ator icônico por seus papéis de gay. Mas, agora, antes de sair correndo, eu quero lembrar seu maior personagem. John Hurt é irreconhecível, mas maravilhoso, sob as deformações do Homem Elefante de David Lynch. Não é um diretor que me empolgue, exceto em filmes como O Homem Elefante e História Real, que talvez sejam, o segundo com certeza, óvnis em sua produção. Fui procurar e encontrei que John Hurt fez cerca de 130 filmes. 130! Parodiou-se, o nascimento do alien, em S.O.S. – Tem Um Louco no Espaço, de Mel Brooks, parindo outro monstrinho que sai cantando e dançando. John Hurt morreu aos 77 anos, de câncer no pâncreas, como Andrea Tonacci. No velório de Tonacci, ouvi que é uma das formas mais sofridas de câncer. Entristeço-me profundamente, pelo dois. Mas sempre restarão os filmes. Para contrabalançar a dor física do Homem-Elefante haverá sempre a euforia de Quentin Crisp. Procurem na internet. Deve ter no YouTube pelo menos o registro da participação de John Hurt em The Naked Civil Servant, que marcou uma verdadeira revolução na TV inglesa, em 1975.