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John Frankenheimer e o complô de Sete Dias em Maio

Luiz Carlos Merten

05 de setembro de 2017 | 09h25

Já que estou em casa, fazendo hora para a cabine de imprensa de Made in America/Feito na América, o novo Tom Cruise, com direção de Doug Liman, vou acrescentar mais dois posts. Já disse que comprei aquelas revistas – Empire, Total Film, Film Comment. A revista da Film Society do Lincoln Center traz um apanhado do melhor de Cannes e o que não deixa de ser uma aposta – A Ghost Story, de David Lowery, saudado como um acontecimento na história dos ‘cinematic hauntings’. Mas a capa é de um filme que vi em Cannes, e gostei. O thriller nova-iorquino Good Time, dos irmãos Safdie, com direito a entrevista de Robert Pattinson. Num número anterior, Film Comment colocou na capa – e dissecou o fenômeno – Kristen Stewart. A dupla da saga Crepúsculo não é mole, não. Depois de David Cronenberg, James Gray e dos Safdie Brothers, queridinhos da nova safra indie dos EUA, ‘Bob’ Pattinson estará no próximo filme de Claire Denis e anuncia seu desejo. Filmar com Ciro Guerra, o diretor de O Abraço da Serpente. Em Gramado, para falar de A Fera das Selva, de Paulo Betti, Eliane Giardini e Lauro Escorel, usei o conceito de filme óvni. Pattinson diz que gosta de gente como Ciro Guerra, que faz esses ‘alien artifact movies’. Mas o que quero falar dessa edição de Film Comment é sobre outras duas coisas. Na página 7, tem um anúncio de página inteira. Warner Archive está lançando, em DVD e Blu-ray, um dos clássicos políticos de John Frankenheimer no começo dos anos 1960. Sete Dias em Maio. Burt Lancaster, Kirk Douglas, Fredric March, Ava Gardner. “O que estou dizendo, Sr. Presidente, é que há um complô militar para assumir o governo dos EUA neste domingo…” Frankenheimer já havia feito Sob o Domínio do Mal/The Manchurian Candidate, Robert Aldrich faria O Último Brilho do Crepúsculo, sobre outro complô, e também com Burt Lancaster (e Richard Widmark), isso para não falar de Stanley Kubrick, Doutor Fantástico. Os anos 1960 e começo dos 70 assistiram a um recrudescimento da Guerra Fria e da escalada nuclear. O cinema estava atento ao movimento e surgiram esses filmes. Faz mais de 50 anos que vi Sete Dias em Maio – o filme é de 1964, baseado no ‘astounding best-seller’, como diz o anúncio. É significativo que esteja sendo exumado neste momento em que Mr. Trump faz uso de uma retórica das armas para recuperar o que considera a grandeza (perdida) da América. Ai de nós. Eu amava Frankenheimer e seus maiores filmes, para mim, ainda estavam por vir – O Homem de Kiev, Os Paraquedistas Estão Chegando, O Pecado de Um Xerife e Os Cavaleiros do Buskashi foram feitos em bloco, entre 1968 e 70. Depois, Frankenheimer perdeu o rumo, mas ainda fez, para TV, filmes de inspiração ecológica, incluindo um sobre Chico Mendes. Vi o anúncio sobre Sete Dias em Film Comment e fiquei viajando, louco para escrever esse post. Os grandes filmes de Frankenheimer são mesmo as obras inscritas no meu imaginário – O Segundo Rosto, O Homem de Kiev (em que Dirk Bogarde e Alan Bates estão geniais, ou assim lembro). Há um desencanto, uma amargura em Paraquedistas e O Pecado de Um Xerife que, na época, me deixaram louco. Frankenheimer! Ele veio da TV, integrando a geração de Sidney Lumet, Arthur Penn, etc. Estreou em 1956, sumiu de Hollywood por uns anos, mas retornou em 1961. Emendou Juventude Selvagem, O Homem de Alcatraz, O Anjo Violento (com o jovem Warren Beatty, no mesmo ano de Clamor do Sexo, a obra-prima de Elia Kazan). Pergunto-me o que terá ocorrido a Frankenheimer para que ele, tão brilhante, tivesse aquele final de carreira tão ziguezagueante? Vai saber. O importante é que, enquanto foi bom, ele foi grande. Preciso fazer um break para o café e correr para a cabine. O outro post prometido fica para depois. Aguardem!

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