As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

João-Ninguém, por Frank Capra e Gianni di Gregorio

Luiz Carlos Merten

19 de fevereiro de 2015 | 14h12

Cá estou! De Volta! Cheguei pela manhã e já estou na redação do Estado. Vim para gravar com meu editor, Ubiratan Brasil, uma apresentação para a cobertura que a TV Estado vai fazer do Oscar, no domingo. Já deve estar no ar, se vocês quiserem conferir. Tive uma quarta-feira – ontem – bem corrida em Paris. Fui a exposições, vi dois filmes, voltei a Notre Dame. No início de dezembro, quando passei por Paris, não sei se cheguei a comentar,  mas por conta das comemorações dos 850 anos da catedral – iniciada em 1163 -, criou-se lá dentro uma linha de tempo que mostra como, por volta de 1160, havia no local uma série de santuários e a ideia de dar-lhes unidade foi que levou à construção do templo gótico. Não me canso de voltar a Notre Dame, Cada estação projeta sua luz dentro do prédio e eu, speedy como sou, adoro me sentar lá dentro e ficar viajando naquelas colunas, naqueles vitrais. Os vitrais de Notre Dame! No aeroporto de Berlim, havia encontrado José Carlos Avellar e a mulher, que partiam para Barcelona. Avellar conversava com não-sei-quem e eu fiquei de conversa com a Cláudia, que é designer, exortando-a a voltar à Sagrada Família, a catedral inacabada de Antonio Gaudí, e também a visitar a Casa Battló, que ela não conhecia, o Parque Guell sim. Existem lugares que são mágicos. Notre Dame, a Sagrada Família. Você pode ir lá mil vezes e o seu olhar vai mudar. Se a gente muda, como nosso olhar sobre as coisas não vai mudar? Queria muito ter visto O Galante Mr. Deeds na retrospectiva de Frank Capra na Filmothèque du Quartier Latin, mas não deu. Terminei revendo ontem A Mulher Faz o Homem/Mr. Smith Goes to Washington, com James Stewart e Jean Arthur, sobre político idealista que se elege para o Senado e descobre um mar de corrupção. Ah, meus colegas críticos. Odeiam os ‘ismos’ de Capra, mas ele foi um grande entertainer e o curioso (triste?) é constatar que, mais de 70 anos depois – o filme é de 1941 -, o tema da corrupção continua na ordem do dia, e não como uma invenção dos políticos brasileiros. Emendei Capra com Ganni di Gregorio no Reflets Médicis – Bons à Rien, bons de coisa-nenhuma, a história de um funcionário público em vias de se aposentar que é atropelado por uma mudança na lei e, ao invés da rétraite, é transferido para outra repartição, em outra cidade. Ele é o típico cara que não sabe dizer não e, ao chegar ao novo local, descobre um colega pior que ele, que faz tudo para todos e é o bode expiatório da repartição. De alguma forma Gianni di Gregorio prossegue com preocupações que já eram de Capra sobre John Doe, João-Ninguém, o homem comum. Adoro os filmes de Di Gregorio, o que ele herda da grande comédia italiana e que soma, como ator-diretor-roteirista, ao cinema confessional de um Woody Allen. Adorei ter visto Bons à Rien. Só espero que, como os anteriores de Di Gregorio, tenha lançamento no Brasil. Minha surpresa maior foi encontrar, no elenco, Ugo Gregoretti. Ator e diretor de teatro, cinema e TV dos anos 1960, fez um episódios de Rogopag (ele era justamente o G, com Roberto Rossellini, Jean-Luc Godard e Pier-Paolo Pasolini) e também a fantasia científica Omicron, contemporânea de A Décima Vítima, de Elio Petri, com Marcello Mastroianni e Ursula Andress, que está de volta em Paris, no Champô, em cópia nova. O olhar de Gregoretti e Petri sobre o futuro investe contra a sociedade de massa. Além do prazer que tive vendo Bons à Rien, ganhei o suplemento dessa viagem por um imaginário que só precisava de uma boa madeleine para despertar.