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João é o cara

Luiz Carlos Merten

22 de julho de 2020 | 14h51

Estou me sentindo meio mal nesta manhã de quarta, mas confesso wque tem menos a ver com as particularidades e dificuldades do pós-operatório do que com um incidente ocorrido hoje cedo. A raspagem de próstata é muito invasiva, a sonda provoca mal-estar e o processo de voltar a controlar a urina é isso mesmo – processo, e doloroso. É precido reacostumar-se. Não precisava estar contando nada disso, mas não vejo como problema. Estava no banheiro quando recebi um chamado. Saí correndo para pegar o telefone. Era um pedido de ajuda de alguma instituição e a garota, obviamente, não estava falando comigo, mas lendo um texto. Eu estava incomodado pelo mal-estar nas minhas partes baixas – pela dor! – e ela não chegava nunca ao ponto. Fui ríspido – ‘Fala como gente!, que vergonha -, desliguei e depois fiquei me sentindo mal, culpado, etc. Se eu, com meu histórico especial, não for solidário, quem vai ser? Havia conversado ontem com Anna Luiza Müller e George Moura, que estão entre os meus interlocutores mais frequentes na pandemia. Anna Luiza me falou no texto de João Moreira Salles na Piauí, Bolsonaro e a Morte. Pedi a revista na banca do Hélio e ela me veio com o café da manhã da Trigonella. João é f… Tudo o que tenho pensado nesse período de incerteza está no texto dele. Como chegamos a esse horror? A indiferença e o deleite expressos nas ações do insano ocupante do Planalto. A ausência de empatia pelo sofrimento humano, o ímpeto destrutivo. Escrevo sobre cinema há mais de 50 anos – muito mais que a média de idade da nova crítica reunida na internet e imagino que até na academia. Cada vez existem menos jornalistas de cinema, hoje a maioria, senão todo mundo, é de mestres, doutores, etc. Parabéns! Longe de mim ser contra – bastam o presidente e seu guru da Virginia -, mas conheço os teóricos e volta e meia me pergunto por que deveria me encaixar em alguma vertente do pensamento cinematográfico, se os próprios grandes, André Bazin, por exemplo, nunca tiveram problemas em admirar obras e autores que não se encaixavam nos seus dogmas? (É o diferencial que os grandes possuem – seus epígonos não têm essa mobilidade e quase sempre limitam-se a seguir regras, e por isso temos hoje um pensamento tão padronizado.) O quero dizer é que, contra tudo e todos, não tenho muito interesse pelas ousadias estéticas de Mario Peixoto em Limite e até acho absurdo que seja considerado o melhor filme brasileiro de todos os tempos. Até acho que faz parte do nosso complexo de inferioridade, como colonizados, mitificar uma obra com aquele grau de experimentalismo e hermetismo. Por mais que aprecie Eduardo Coutinho, também tenho de admitir, mas isso vocês já sabem, meu maior documentário da história do cinema brasileiro brasileiro é Santiago e o segundo não é nem um longa, mas o média de Geraldo Sarnoi que integra a coletânea Brasil Verdade – Viramundo. Não poderiam ser mais
diferentes e só depois vêm Edifício Master e Jogo de Cena. Mesmop com risco de ser considerado maluco, e reconhecendo a importância de Cabra Marcado para Morrer, o filme não me parece tudo aquilo pelo simples fato de que Coutinho ainda não dominava a arte da conversa, não propriamente entrevista, e o filme deixa isso muito claro. É a sdua fraqueza. Tive o privilégio de entrevistar Coutinho a cada novo filme, e o sentia cada vez mais isolado, ia escrever triste. Triste? Tenho minha interpretação. O culto a Coutinho, essa maldita mania de transformar artistas em mártires (Glauber, Peixoto) e as particularidades de sua vida pessoal – o que sei de seus amores e família (e sei!) – o emparedaram. Deu no que deu. Volto ao texto do João. Que País é esse, como e por que, com tantas opções naquele processo eleitoral, uma parcela tão grande de brasileiros, em nome do antipetismo, embarcou na pior viagem? O texto do João não tem ‘a’ resposta, mas é rico em hipóteses e certamente faz pensar. Estou aqui iumerso nesses pensamentos soturnos, buscando a luz no fim do túnel, o que já era o que fazíamos na ditadura. O texto está enorme, prossigo no próximo post.