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Jesus manso e humilde

Luiz Carlos Merten

29 de junho de 2020 | 11h29

Deve ocorrer com todo mundo que está atravessando essa pandemia na segurança do isolamento. Não é todo mundo que está podendo, mas alguns, entre os quais me incluo, estamos conseguindo. Tem dias que a gente se sente/como quem partiu ou morreu. Uma opressão no peito. Acordei assim nessa segunda. Será uma semana intensa, agitada. Tenho programada, entre outros exames, uma cintilografia, exame duro, de seis horas, para ver como anda esse velho coração. Estou com uma cirurtgia agendada para meados de julho, há que preparar-se. Preparar-me! Na verdade, essa opressão vem crescendo desde sábado, quando revi à tarde, na Globo, o 2 Filhos de Francisco. Tem tanta coisa que gosto no filme de Breno Silveira – uma brasilidade que remonta a Humberto Mauro. Toda a parte descritiva, quase documental – a pobreza digna, o trabalho, o sacrifício. Mas tem ali uma mobilidade social, em que o reconhecimento – artístico – está ligado ao sucesso e ao dinheiro que me incomodou como nunca. Alguma coisa de hagiográfico. A semana passada inteira passei meio em crise, e explico. Acho que foi na terça – a gente perde a noção do tempo – que vi o primeiro capítulo da série criada por Pedro Bial, com direção de Camila Appel (e Ricardo Calil) sobre João de Deus. Como todo mundo, acompanhei as denúncias de abuso contra o médium, a sua condenação. Mas tenho de confessar que talvez tenha me doído mais porque, embora também fosse hagiográfico, havia gostado daquele documentário sobre João e a casa de Abadiânia. Parecia um homem tão bom, compassivo. Os depoimentos eram tão sinceros. Como foi possível uma equipe ficar lá na casa, por não sei quantos dias, sem perceber nada? Conversei com a Mônica, e ela me falou sobre o material que a Oprah Winfrey dedicou a ele. Oprah! Ela também entrou na roubada. Fiquei deprimido. O cinema pode ser tanta coisa. Janela para o mundo, para a realidade. Instrumento de investigação, mas também de mistificação. O pior é confrontar esse outro lado da história, o dark side, no momento em que o próprio Brasil está afundando, com essa gente horrível no poder. Estou olhando a capa da CartaCapital. A grande família. Será que conseguiremos sair desse buraco? Penso em pessoas que eram queridas e das quais me distanciei, gente que, por crença ou conveniência, entrou na onda desse fake que nos trouxe ao impasse medonho. Jesus manso e humilde de coração, fazei meu coração semelhante ao Vosso. O que seria de mim sem o Rosa? Sem o cinema? Olho para a minha casa. Estantes, cadeiras, mesa, tudo atulhado de livros, revistas, DVDs. Tem horas em que quero me livrar de tudo isso. Começar de novo! Ontem, cavoucando numa pilha, encontrei vários números da FilmeCultura. O número 50, de abril de 2010, há dez anos. Lula ainda era presidente, Gustavo Dahl era diretor da revista e gerente do CTAv. Cinema Brasileito AGORA, é a chamada da capa. Cinema brasileiro ontem. Dei uma lida em alguns artigos e só vi interesse no de Francis Vogner dos Reis que analisa o mal-estar como sintoma daquele período. O mal-estar não é decorrente de uma experiência histórica presente e traumática, ele escreve, mas se dá por meio da aflição de um presente que não consegue encontrar um sentido para seus colapsos e tragédias. O mal-estar da falência dos discursos. Atravessando o mal-estar?, Estrada para Ythaca, dos irmãos Pretti e primos Parente, que eu nunca tive dúvida de que era um filme-farol, e que me esforcei para premiar quando fui jurado da Mostra Aurora. A revista faz análises regionais – o cinema de Pernambuco, Minas, Rio Grande do Sul, Rio, São Paulo, etc. Cláudio Assis, alguma sinalização para Kleber Mendonça Filho e Gabriel Mascaro, uma citação breve a André Novais de Oliveira, outra, mais breve ainda, a Affonso Uchoa. Esses dez anos mudaram tanto assim o panorama? O mal-estar persiste, face a uma realidade cujas contradições a pandemia só tem feito agravar. Hoje estou atolado no meu mal-estar – coisas de pandemia -, mas o cinema tem ajudado. Kleber, Claudião Assis, Mascaro, Uchoa. A turma do Recife, de Contagem. É de onde está vindo a luz no fim do túnel. Continuo essa contradição ambulante. Sei bem que a inovação é para pouquíssimos, e quero ser um deles, mas não resisti a rever ontem, na TV, o Superman de Zack Snyder. Henry Cavill e Kevin Costner. Por que esse raio de filme me emociona tanto? O cara pode ser super-herói, mas as escolhas éticas são humanas. E o pai! No sábado à noite tive um raro momento de êxtase. O concerto de verão, Gustavo Dudamel regendo a Filarmônica de Viena. Ao piano, Wang Yuja. De que planeta veio aquela chinesa? A Rahpsody in Blue de Gershwin, uma valsa de Chopin. Ela toca música erudita vestida como se fosse popstar. Decote, coxas monumentais, como se fossem as de Cyd Charisse. Dedilha o piano e sacode o corpo – a boca, os olhos – como se estivesse tendo um orgasmo. O crossover. Erudito, pop. Limites em 2020? Tá brincando? A maravilha da arte!