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Jean Douchet, a arte de amar

Luiz Carlos Merten

08 de março de 2020 | 10h54

Havia comprado em Lisboa a Cahiers de fevereiro, com Martin Scorsese na capa. comprei também a Positif (Clint Eastwood, O Caso Richard Jewel) e a Empire (de março, embora ainda fosse fevereiro). A capa da Empire lista os 100 maiores filmes de todos os tempos, escolhidos por cineastas, críticos e leitores. Essa, sim, é uma lista geracional. Nada de Cidadão Kane, O Encouraçado Potemkin, nem O Mensageiro do Diabo. City of God/Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, ficou em 23.º. Vamos logo ao número 1 – Max Max, Estrada da Fúria. Volto à Cahiers de janeiro, com Virginie Efira na capa. Imagino que, se o filme estiver pronto, irá a Cannes, onde Paul Verhoeven, mesmo sem ganhar, arrebentou com Elle. No afã de descobrir logo os filmes mais esperados do ano, fui direto até lá. Vi que, nas primeiras páginas, havia uma uma matéria – Jean Douchet, ou La Parole. Passei voando. Olhei agora – Figura histórica da Cahiers, Jean Douchet s’est éteint morreu em 22 de novembro, aos 90 anos. Morreu Douchet! Quem? Jean Douchet foi o farol de Jefferson Barros, figura também histórica da crítica de cinema no Rio Grande do Sul. Jefferson, José Onofre, Enéas de Souza. Enéas é o único sobrevivente desse trio e continua ativo na Teorema. Jefferson morreu em 2000, Zé Onofre, que foi meu chefe no departamento de audiovisual do Colégio Israelita Brasileiro, em Porto Alegre, e depois meu editor no Caderno 2, foi-se em 2009. Jefferson era um brilho só, mas o Onofre, me desculpa Enéas, foi o maior de todos nós. O maior crítico brasileiro de cinema? Não duvido. Volto a Douchet. Ele mantinha em Paris um cineclube muito particular. Todo mês projetava um filme e o debatia com o público. Às vezes, um grande clássico, na maioria das vezes um filme em cartaz. Douchet acreditava que, a partir de qualquer filme, não apenas dos Eisenstein, Welles, Visconti, pode-se debater o cinema. Estranhei, esta semana, ao passar pelo ciné Panthéon, na Rue Victor Cousins, para fazer minhas compras na livraria especializada Reflets Médicis, que o filme deste mês – Ragtime, de Milos Forman, em 19 de março – seria apresentado por outro cara. Fui pesquisar agora e seu nome é Thomas Aïdan. EStou sabendo agora o motivo. Meu sonho, que deixa de ser secreto, sempre foi fazer um cineclube nos moldes do de Douchet. Em São Paulo, em, Porto Alegre, no Rio. Um encontro de cinéfilos para externar nosso amor pelos filmes, pelos autores. No texto da Cahiers, Jean-Philippe Tessé diz que Douchet não era um teórico. Nunca quis, como André Bazin, responder à pergunta – o que é o cinema? Seu gesto crítico, en revanche, buscava estabelecer um elo entre a obra e seu público. Um título emprestado de Ovídio – A arte de amar- serve de nome a uma coletânea de seus escritos na Petite Bibliothèque des Cahiers du Cinéma. L’Art d’Aimer está à venda na Amazon.

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