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James Garner

Luiz Carlos Merten

20 de julho de 2014 | 13h10

Morreu James Garner. Estou na redação do Estado, tinha vindo fazer minhas matérias para a edição de amanhã – as críticas de O Estudante, de Santiago Mitre, e Bistrô Romantique, comédia belga de um diretor que não conhecia, Joel Vanhoebruck. Nossa pauteira, Eliana Souza, me localizou em meu ramal e me deu a notícia. James Garner! Era garoto, a TV engatinhava no Brasil e eu não perdia Maverick, que ele estrelava. Naquela época, a televisão não tinha o prestígio de hoje, os telefilmes eram enlatados, espécie de filmes B, e eu ligado nas história do jogador que saltava de cidade em cidade, envolvendo-se em múltiplas aventuras. James Garner virou astro na TV e, depois, no cinema. Todos aqueles filmes – Fugindo do Inferno, de John Sturges, Não Podes Comprar Meu Amor, de Arthur Hiller, e Victor ou Victoria?, de Blake Edwards, ambos com Julie Andrews, e O Romance de Murphy, de Martin Ritt. James Garner fez também a versão para cinema de Maverick, de Richard Donner, com Mel Gibson, e foi um dos velhos cowboys do espaço, de Clint Eastwood – que começou com ele, na telinha, e até apareceu como convidado na série de jogador pistoleiro. James Garner morreu aos 86 anos. Logo depois de completar 80, sofrera um derrame. Vivia recluso. Foi encontrado morto ontem à noite, a polícia de Los Angeles noticiou o fato agora pela manhã. James Garner tinha um charme viril, um sorriso irônico. Fez a Marinha Mercante, serviu no Exército e, até onde sei, foi ferido duas vezes na Guerra da Coreia. Tenho muitas boas lembranças de James Garner, na TV e no cinema. Fui ontem a um debate no Teatro Pequeno Ato, sobre Foucault, a propósito da peça A Vida de Homens Infames, da Companhia dos Infames. Bem interessante, mas um dos debatedores dizia que a arte tem de incomodar eu sempre me incomodo quando ouço isso. Cada um tem a sua fórmula do que deve ser a arte. Eu tento sempre aceitar todas as vias, sem privilegiar nenhuma. Incomodar? Certo. Mas se um dos maiores artistas que já existiu, Van Gogh, numa carta ao irmão Theo disse que gostaria que sua pintura fosse um consolo para os que, no limite, sofriam como ele, dilacerado internamente? Van Gogh estava errado? Incomodar, consolar. Não creio que James Garner alguma vez tenha me incomodado. Consolado? Também sim. Sua presença humana oferecia conforto. Que tenha morrido sozinho, me parece triste. E eu choro pelo amigo, assim me parecia, que se foi.

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