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James Dean, (por que?) o mito sobrevive

Luiz Carlos Merten

30 de setembro de 2015 | 10h17

Completam-se hoje, 30 de setembro, 60 anos da morte de James Byron Dean, aos 24 anos. James Dean! Dado o aumento da expectativa de vida, ele poderia estar fazendo 84 anos, se não tivesse morrido naquela estrada da Califórnia, na direção de seu Porsche. O curioso é que fui fazer uma pesquisa sobre as circunstâncias da morte e encontrei no YouTube um vídeo simulando o choque de carros. Jimmy Dean não morreu instantaneamente. Partiu a coluna, sofreu hemorragia interna. Faz parte da mitologia deaniana o relato do mecânico que o socorreu. Ele teria gemido – chamando pela mãe ou por Deus? O impressionante é que passado todo esse tempo James Dean virou ícone cultural e permanece no imaginário coletivo como representação da rebeldia da juventude. Foram apenas sete filmes, num período de quatro anos. Quando o sétimo estreou – Assim Caminha a Humanidade/Giant, de George Stevens, em 1956, ele já estava morto. Nos quatro primeiros, foram pequenos papéis, mas dois levam a assinatura de diretores importantes – ‘autores’ -, Samuel Fuller (Baionetas Caladas) e Douglas Sirk (Sinfonia Prateada). A fama deve-se ao bloco de três filmes formados por Vidas Amargas, de Elias Kazan, Juventude Transviada, de Nicholas Ray, e o já citado Assim Caminha a Humanidade. Foi garoto propaganda do Método, o estilo de representação interiorizado (neurotizado?) que Kazan e Lee Strasberg formataram no Actors Studio, de Nova York, cooptando atores que viraram astros, como Marlon Brando e Montgomery Clift. No teatro, Dean fez O Imoralista, de André Gide. Prêmio Nobel de Literatura em 1947, Gide não dispõe hoje da mesma projeção de Albert Camus e Jean-Paul Sartre, mas foi um dos mais importantes intelectuais de seu tempo. Fundou uma revista de crítica, abordou temas polêmicos e, na sua autobiografia, contou como, gay reprimido, saiu do armário durante uma viagem à África, quando ficou gravemente enfermo e achou que ia morrer. Há controvérsia se Jimmy Dean era gay. É mais certo que fosse bissexual. Há um filme recente, que preciso conferir se está no Festival do Rio ou na Mostra de São Paulo -Life, de Anton Corbjin -, sobre a ligação de Dean com o fotógrafo Dennis Stock, que o clicou em algumas de suas imagens mais famosas, fora do cinema. O fotógrafo é interpretado por James ‘Crepúsculo’ Pattinson, Jimmy é Dane DeHaan. Rola um clima entre os dois, na tela, no filme do holandês Corbjin, que já fez aquele outro filme sobre o vocalista do Joy Division, que se matou aos 23 anos (Control). Penso em James Dean e o que vem são cenas de muita intensidade. Vidas Amargas/East of Eden, Caim e Abel. Ele joga na cara do irmão que a mãe deles é uma p… e não morreu. Está viva num bordel em outra cidade. Kazan dirige seus atores numa histeria imensa, mas é difícil, senão impossível, não se emocionar. Juventude Transviada chama-se Rebel without a Cause, no original. Rebele sem Causa, mas o filme não faz outra senão fornecer causas para a rebeldia de Jim Stark. A família, a escola, a polícia – o pai fraco, que ele despreza. Nicholas Ray distorce o ângulo e desestabiliza o eixo da câmera na famosa cena da escada, quando Jim afronta o pai. Ele forma sua família alternativa com a namorada e o amigo. Natalie Wood e Sal Mineo, que faz ‘Plato’. Os três refugiam-se no planetário, criam as família ‘cósmica’. Se a vida, na Terra, não é possível, quem sabe nas estrelas? Quem garante que a saga intergaláctica de Star Wars não nasceu ali? O mais desestabilizador é que morreram os três tragicamente – James Dean, no acidente de carro; Natalie, ao cair do barco; e Sal, presumivelmente assassinado por um michê. (Em Exodus, de Otto Preminger, ele explode chorando ao contar como foi ‘usado’ sexualmente, como El Aurens/Peter O’Toole em Lawrence da Arábia, e vira terrorista. É outro grande, imenso, filme.) E, em Assim Caminha a Humanidade, temos uma projeção do que poderia ser James Dean quando velho – um reacionário? Na primeira parte, jovem e frágil, ele ama Elizabeth Taylor, mas ela é a mulher de Jordan Benedict/Rock Hudson. Jett Rink/Dean gasnha um perdaçop de terra da irmã de Jordan. Descobre petróleo. Fica bilionário. A cena em que ele, todo enlameado de óleo, invade a casa de Jordan para contar a Leslie/Liz que está rico, é puro James Dean. A cena em que Jordan leva a filha, Carroll Baker, para que ela veja Jett destruído, também. Como James Dean teria envelhecido? Jamais saberemos? Ele vive eternamente jovem, como imagem. O jovem Robert Altman fez um de seus primeiros filmes, o segundo, The James Dean Story, em 1957. Em 1982, voltou ao tema, como ficção, em James Dean -O Mito Sobrevive, que adaptou de uma peça. Amigas se reúnem para lembrar os 20 anos da morte de Jimmy. Muito jovens, moravam no Texas e foi na cidade delas que George Stevens filmou Giant/Gigante. Todas sonhavam com James Dean – Sandy Dennis, Cher e as outras. O tempo passou para todos e todas, menos para ele. Estão f…, acertam velhas contas. No espelho do cinema, quando se (re)vê o mito James Dean, acho que o que que está em discussão é justamente isso – nós que já fomos, ou somos, jovens, até quando manteremos a juventude da alma? O mito a tudo resiste. É eterno. Se alguém acha que esse post deveria ter trazido pelo menos uma imagem de Jimmy, informo (acrescento?) – fiz um post para o portal do Estado, com todas as fotos e trailers necessários.

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