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James Cameron, Ridley Scott e suas representações do paraíso

Luiz Carlos Merten

21 de outubro de 2020 | 23h05

Apesar do post anterior, não estou tendo nenhum surto místico nem conversão religiosa católica. Gosto de visitar igrejas com significado histórico – Notre Dame em Paris, a Sagrada Família em Barcelona, a Catedral de Toledo, o Vaticano em Roma, a capelinha do Ó em Minas, o santuário de Fátima, onde já devo ter ido cinco ou seis vezes, mas nunca fui a Aparecida, aqui perto, mea culpa. Já vi muitas vezes o Gladiador de Ridley Scott, sem nunca me entusiasmar muito pelo filme, que sempre me pareceu uma mistura requentada de duas obras maiores – o Spartacus de Stanley Kubrick e A Queda do Império Romano, de Anthony Mann. Na sua autobiografia – O Filho do Trapeiro -, Kirk Douglas conta como contratou Mann para dirigir Spartacus, mas os dois tiveram as tais divergências artísticas e separaram-se sem romper. Douglas chamou Kubrick, que dirigira Glória Feita de Sangue, e interpretou depois outro Mann, Os Heróis de Telemark. Revi Gladiador no outro dia, na TV paga, e creio que pela primeira vez consegui viajar no significado religioso da cena final, quando Máximo/Russell Crowe morre na arena e sua alma viaja ao encontro da mulher e do filho, mortos pelo imperador, Joaquin Phoenix. É curioso como, depois de rever o filme, fiquei pensando no Titanic de James Cameron e como a cena final, com a reconstituição do esplendor do transatlântico também representa a chegada de Jack/Leonardo DiCaprio e Rose/Kate Winslet ao paraíso. Confesso que nunca fui um grande admirador de Titanic e até torcia pelo Curtis Hanson – Los Angeles, Cidade Proibida -, quando ambos concorreram ao Oscar. Mas no outro dia, depois de rever Gladiador, lá fui eu conferir no DVD o final de Titanic. Ainda não foi dessa vez que me deixei arrebatar pelo filme, mas me peguei pensando nessa representação do sagrado. Também nunca fui pasoliniano de carteirinha, mas não creio que exista cena mais bela para resgatar op sagrado no mundo profano que a abertura de Medeia. Pier-Paolo mostra o centauro revelando o mundo para o menino Jasão. As árvores, os animais, o céu, as nuvens, os homens – tudo é santo. Reencontrei um pouco desse sentimernyto no Ridley Scott quando Djimon Hounsou enterra os bonequinhos e diz que também espera reencontrar sua família no paraíso.