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Jack Reacher e a coragem sob fogo, tema de Edward Zwick

Luiz Carlos Merten

23 de novembro de 2016 | 00h37

Dois dias muito intensos. Keithy, a namorada do Heitor, filho do Dib, foi atropelada por uma moto na frente de casa e teve fratura exposta da perna. Já fez uma cirurgia e, muito provavelmente, terá de fazer outra. Eu estou correndo para completar meus exames – amanhã, quarta, tenho dois -, antes de ir para o Rio para a Semana dos Realizadores, na quinta. Amo a Semana, que tem uma energia muito boa. Cinema autoral, radical, de resistência mesmo. Lis Kogan tem feito a Semana na coragem, quase sem recursos. Merece todo apoio. Vou reportar, de lá, o que for vendo. E ainda nem falei de Jack Reacher – Sem Retorno. Isabela Boscov não gostou, por um rápido comentário que me fez na saída da sessão de imprensa, mas eu fico em dúvida se ela não gosta pelo personagem de Lee Child ou pelo ator, Tom Cruise, arauto da Cientologia, ou se é uma coisa casada dos dois. Luiz Zanin também não gostou. Eu talvez não tenha gostado tanto quanto esperava – ainda estou processando -, mas gosto do ator, do personagem e do diretor, Edward Zwick. Há sempre um conflito de autoridade no cinema desse diretor. Seus personagens vivem em guerra com as instituições, o Exército, principalmente. Nesse sentido, tudo levava Zwick a Reacher. Edward quem? Zwick fez para mim um dos grandes filmes de Hollywood nos anos 2000, com a melhor atuação de Leonardo DiCaprio – Diamante de Sangue -, mas, claro, boa parte da crítica nem viu, porque na época devia estar babando o ovo de alguma porcaria de Martin Scorsese com ‘Leo’. Zwick é um narrador clássico, mas com uma pegada política moderna. Já havia feito O Último Samurai com Tom Cruise, um filme belíssimo, com cenas de ação dignas de Akira Kurosawa e com um herói anacrônico muito interessante, um homem perdido em seu mundo, na ‘América’, e que vai se encontrar no Japão ao assimilar o bushido, o código de honra dos samurais. Alain Delon, só para lembrar, fez o mesmo em O Samurai, de Jean-Pierre Melville, um dos maiores filmes franceses. Em princípio, Tom Cruise pareceria uma escolha equivocada para ser Jack Reacher. Cruise não tem physique du rôle. O cara – Reacher – tem mais de 1,90 m, pesa 113 quilos. É uma máquina de matar. Age por instinto. É andarilho profissional, desde que o mal-estar íntimo – o desgosto – o levou a abandonar o Exército. Mas o Exército não o abandona, e Reacher está sempre se metendo em confusão – em geral, não para salvar o mundo, mas pessoas. Aqui, é a major que descobre a podridão dentro da instituição, é acusada de espionagem e teria sido despachada a sangue frio, se Reacher não se dispusesse a salvá-la. Cruise pode não ter o físico, mas tem o temperamento para ser Jack Reacher.. E conta alguma coisa o fato de ele dispensar dublês. A cara pode estar esquisita (botox?), mas o físico é poderoso. Como se a trama da major e a corrupção que ela descobre não fossem suficientes, tem outra, envolvendo a suposta paternidade do herói – filha adolescente, rebelde, e com tendência a roubar. Se em Tempo de Glória resgatou o heroísmo de um pelotão de negros, ex-escravos, na Guerra Civil dos EUA, em Coragem Sob Fogo Zwick mostrou um oficial negro (Denzel Washington) tentando provar que Meg Ryan, morta em combate, merece, postumamente, a medalha de honra do Congresso. Agora, há outro oficial negro – sempre o aspecto racial nos filmes de Edward Zwick – que Reacher e a major precisam ganhar para o seu combate. Sempre, ou nos dois casos, a mulher no universo masculino. A major não aceita receber ordens de Reacher – a suposta filha, talvez por experiência própria, encanta-se com uma mulher que manda nos homens. Reacher e a Major precisam desculpar-se, aprender a conviver. É tudo muito forte, crítico, autoral, mas entendo o desprezo da crítica, embora não o aceite. Nasce de conceitos inexatos, e de uma falsa superioridade. Por que se preocupar com Edward Zwick? Porque é um grande diretor, e porque já existem, na academia de lá – na universidade -, alguns estudos bastante sérios sobre ele. (Como contestar o sistema de dentro do cinemão.) Muitas críticas formuladas ao Nate Parker de O Nascimento de Uma Nação por aqui não têm nada a ver com o filme, que alguns (preciso dar nomes?) olharam sem ver direito. De minha parte, interesso-me mais por esses caras – Zwick, Antoine Fuqua – do que pelos diretores entronizados pela Academia (a de Hollywood), os Scorsese e Iñárritus da vida. Quanto a Lee Child, escreve muito bem e, no deslocamento do herói, cria paisagens (e mulheres) muito vívidas. Há algo de Yojimbo em Reacher. Quem leu os livros, sabe que o pai do herói, um militar, serviu em Okinawa. Essa conexão japonesa ainda vai ficar clara, um dia. Já está clara na cabeça de Zwick. O novo último samurai? Gosto de ler os livros de Child. Sonho com uma adaptação de Miragem em Chamas, o que mais me atrai. Não foi por acaso que Tom Clancy já se referiu a ele como ‘o maior’.