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Jack London (2)/O chamado do engajamento político

Luiz Carlos Merten

16 de março de 2020 | 19h58

Político ou ideológico? Voltei de viagem e já estava o Martin Eden, mas eu queria ver antes O Chamado da Floresta. Já disse que o filme estava em salas e horários impraticáveis. Terminei vendo antes o Martin Eden, mas preferi esperar para postar. Foi bom, terminei vendo no quadro do Guia de cotações da Folha, a frase de Flávia Guerra – A classe literária não vai para o paraíso. E o Thales de Menezes – O cinema de experiência ainda resiste. Volto à premiação da Berlinale. Estava sentado na sala do Cinemaxx assistindo à transmissão. O tapete vermelho. O presidente do júri, Jeremy Irons, e seus jurados. Kléber Mendonça Filho, Bérénice Bejo, acompanhada do marido, o cineasta Michel Hazanivicius. Para o carro e desce aquele puta macho de olho claro, alto p’a cacete. Dá a mão para a acompanhante e sai do carro a mais bela deusa do Olimpo. Eram Luca Marinelli e a mulher. Luca foi melhor ator em Veneza, no ano passado, como o Martin Eden de Pietro Marcello. Foi jurado em Berlim e entregou o prêmio da melhor atriz – Paula Beer, a Undine de Christian Petzold. Paula, Luca, a mulher. Como pode existir gente tão bonita no mundo? Martin Eden pode não ser o personagem autobiográfico de Jack London, mas ele com certeza se projeta na figura do autor proletário que questiona a sociedade de classe e o mercado literário. Pietro Marcello talvez nem conheça Riccardo Freda. O Magnífico Aventureiro. Benvenuto Cellini. O artista como aventureiro. Benvenuto/Brett Halsey faz amor, a guerra. Martin Eden também faz amor (sexo?), afugenta o valentão que ameaça o garoto, solta sua voz no palanque de trabalhadores. Um homem completo? Incompleto, porque ele não tem a educação para se colocar no nível da mulher amada. Todo o filme é sobre um processo de maturação e crescimento – como Buck em O Chamado da Floresta? – de um homem entre dois mundos. Classe operária e burguesia, arte e política. Originalmente, a história – do livro – passa-se em Londres, mas Marcello a transpõe para Nápoles. A transposição não é só espacial. O diretor toma tantas liberdades com o tempo e o próprio formato, utilizando o 16 mm, que a linguagem torna-se essencial em Martin Eden. Se o livro e o filme são sobre um escritor, é compreensível que Marcello, na sua transcriação, busque formas de transformar a escrita em audiovisual. É um belo filme – olha o spoiler – que radicaliza o não pertencimento de Martin. Defendendo os pobres – dos ricos como da sua classe -, ele é um solitário que usa a palavra para expressar sua compreensão (defesa?) do indivíduo. No final, com a perspectiva da guerra, dividido entre os militares, de um lado, e os seus, de outro, ele parte para o mar, que, desde o começo, é um símbolo da sua busca por liberdade.