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Jack London (1)/O Chamado da Floresta

Luiz Carlos Merten

16 de março de 2020 | 16h57

Iniciei minha série de viagens – Portugal, Alemanha, França – quando O Chamado da Floresta estava entrando em cartaz. Não deu tempo de ver o longa de Chris Sanders adaptado de Jack London. Voltei e o filme estava em salas – e horários – impraticáveis. Neste final de semana, estava em apenas um horário, sábado e domingo, às 14h10, no Kinoplex Vila Olímpia. Era agora ou nunca. No sábado, estava preso, no hospital, fazendo exames – o resultado ainda não saiu. Fui no domingo. Quatro ou cinco pessoas numa sala enorme, se tanto. Fiquei impressionado com a beleza – hiperrealista – das imagens de Janusz Kaminski. Há anos ele tem sido o diretor de fotografia de Steven Spielberg. Fotografou a trilogia informal sobre o 11 de Setembro – O Terminal, Munique, Guerra dos Mundos – e também Cavalo de Guerra, Soldado Ryan e A Lista de Schindler, recebendo o Oscar pelos dois últimos. Tomei um choque ao descobrir que o cãozarrão Buck e os lobos cinzentos foram criados digitalmente, mas faz todo sentido, considerando-se que Chris Sanders, de Lillo e Stitch e Como Treinar Seu Dragão, é o diretor. O curioso é que não sabia disso e, durante todo o filme, uma coisa me intrigava. Há uma diferença nos olhos de Buck, ele parece estrábico. O olho direito é, com certeza, diferente do esquerdo – será que tem de ver com a técnica? Sempre achei que fosse As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, mas li recentemente, em função do filme, que O Chamado da Floresta talvez seja o livro mais lido, o mais popular, da literatura norte-americana. Jack London foi um autor engajado, militante. O Chamado da Floresta é sobre como Buck, um cão doméstica, passa por vários donos até tornar-se, ele próprio, senhor do seu destino. Para isso, Buck precisa reencontrar sua natureza selvagem. Esse radicalismo conceitual fez com que o livro fosse banido por fascistas e nazistas. O livro é construído do ponto de vista do cão, mesmo que ele não seja o narrador. No filme de Sanders, muito do que seria a voz interior de Buck é racionalizado pelo Jack de Harrison Ford, com quem ele interage. As versões anteriores de William Wellman e Ken Annakin já se valeram dessa voz externa, mas pela primeira vez Jack ganha a própria história. Esse homem taciturno que viaja para o Klondike não está atrás de ouro, mas busca expiar a perda do filho. Depois da morte do garoto ele se fechou no seu silêncio, o casamento implodiu e Jack veio para o fim do mundo viver a aventura sonhada pelo menino. Vive-a com o cão. Testemunha sua transformação – Buck encontra na natureza o seu lar. E Jack? Veja. Em tempos de coronavirus, quando estamos sendo chamados ao confinamento, o apelo do Chamado à floresta, ao outdoor, me encheu de euforia. Vida e morte no grande teatro – o grande espetáculo – da natureza. Li uma entrevista de Harrison Ford e ele contou como, nas cenas em que acaricia Buck, na verdade acariciava um ator do Cirque du Soleil, que fazia o papel live, para ser substituído depois. Confesso que fiquei siderado. A loucura que é o cinema, seu processo criativo, industrial. Acho que até Jack London teria gostado do novo The Call of the Wild.

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