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Ítaca!

Luiz Carlos Merten

24 de outubro de 2014 | 09h19

Cada um terá seus preferidos na Mostra. Eu tenho os meus. Um filme brasileiro, Casa Grande, de Fellipe Barbosa, com a melhor atriz do ano, Clarisse Pinheiro. Marcos Bernstein me contou outro dia que a ausência de Clarisse dos Palmarès no Rio – dos Redentores – deveu-se a uma trapalhada da produção, que a indicou para melhor atriz, quando deveria ser melhor coadjuvante. Há controvérsia, ou eu, pelo menos, teria polemizado. O júri é soberano, até para fazer m…, o que via de regra faz. Mas tem poder para impor suas regras e fazer escolhas. Quem é a protagonista feminina de Rocco e Seus Irmãos – Nadia/Annie Girardot ou Rosario Parondi/Katina Paxinou? São as duas coadjuvantes? Annie, mesmo dublada, tem para mim a maior interpretação da história do cinema. A mãe seria a protagonista feminina de Casa Grande? Nunca. Só se o critério fosse ‘de classe’. A doméstica pode parecer secundária, mas a transformação do garoto, no filme de Fellipe Barbosa, vem por ela, e por meio dela. Eu teria defendido que fosse premiada, evitando o absurdo de certas escolhas do júri do Rio. E o filme é o nacional do ano, de alguns anos. O Som ao Redor bom de fato, que merece a overdose de elogios despejada sobre o longa de Kleber Mendonça Filho, que é bom, claro, mas menos. A descoberta da rua pelo garoto de Casa Grande é antológica. Meu outro grande não é, como poderia parecer, O Segredo das Águas, de Naomi Kawase, poderosa, mas Viagem para Ítaca, de Laurent Cantet. Nós que nos amávamos tanto. O fantasma da revolução cubana assombra o continente, e o mundo. A ditadura de Fidel, objeto de tantas denúncias, é uma afronta à direita porque uma ilha sem poderio militar resiste, há mais de meio século, à pressão das potências, e da potência (os EUA). E se resiste, é porque tem sustentação. No imaginário do povo? Que povo? Por corrompido que tenha sido o sonho original, não morreu. É o tema de Cantet. E como diz a velha mãe, se a amizade resistiu a tanta coisa, que não termine agora. Vi Viagem para Ítaca em êxtase. Amei. O cinema pode ser/é uma coisa maravilhosa. Antônio Gonçalves Filho foi ver O Sol do Marmelo na noite anterior – insisti para que ele fosse e escrevesse sobre o filme genial de Victor Erice – e ontem ele me disse que estava chapado. Mas o cinema também é fonte de mistificação. Fui ver ontem o vencedor de Veneza, Um Pombo Pousou no Galho, Refletindo sobre a Existência. Não é desse carnaval que acho a filosofia de Roy Andersson coisa de almanaque. O filme dele é Relatos Selvagens made in Sweden/Suécia. Até passei a gostar mais do filme do argentino Damian Szifrón. Em fevereiro/março, Um Pombo aparecia sempre entre os prognósticos da seleção de Cannes. Rejeitado na Croisette, foi para o Lido. É a segunda vez que um filme recusado em Cannes ganha em Veneza – o outro, Vera Drake, de Mike Leigh, é tão ruim quanto. Que raio de festival virou Veneza? No ano passado, o júri – presidido por Bernardo Bertolucci! – premiou aquele documentário chinfrin sobre o anel viário aso redor de Roma. E este ano, nem sei quem presidia, escolheu o Andersson. O mundo é uma porcaria, o homem não é sapiens coisa nenhuma. A grande filosofia de Andersson consiste em praticar um cinema em episódios e que quer ser engraçado (mas eu não consigo rir). Seu segredo está no tom, e nos personagens, na maioria das vezes reduzidos a tipos estranhos – bizarros mesmo – como os que a gente encontra nos filmes de Aki Kaurismaki, que é muito, mas muito, melhor. Hoje, finalmente, espero ver A História da Eternidade, de Camilo Cavalcanti, que venceu Paulínia. Não sabia nada do filme. Para fazer uma chamadinha no jornal, fui ao catálogo da Mostra. Uma garotinha sertaneja, Alfonsina, sonha conhecer o mar. Imediatamente me lembrei de Alfonsina y el Mar, do melhor disco de Mercedes Sosa (mas Amelita Baltar também canta divinamente a música). O problema é que, vendo o filme de Camilo Cavalcanti, não sei se consigo assistir a outro vencedor de Veneza, As Noites Brancas do Carteiro, no fim da noite. Espero, sinceramente, que o Konchalovski seja melhor. Que o Roy Andersson, digo.

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