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Ítaca e a crise na representação da turbulência do mundo

Luiz Carlos Merten

03 Agosto 2018 | 23h45

Fui ver ontem Ítaca Nossa Odisseia I, a partir de Homero e de outras inspirações. Christiane Jatahy reencontra suas atrizes Julia Bernat, Isabel Teixeira e Stella Rabello, agrega um elenco masculino francês, despeja uma tonelada de água no piso do Ginásio Verde do Sesc Consolação e lá vamos nós navegar pela turbulência do mundo atual. Christiane deve ser hoje a mais internacional das diretoras brasileiras de teatro, e não só mulheres. A produção do espetáculo é do Odéon – Théâtre de L’Europe. O programa traz uma entrevista muito interessante de Christiane com Aida Tavares, diretora artística do Teatro São Luiz, de Lisboa. De volta da guerra, Ulisses fica preso durante sete anos na ilha de Calypso, enquanto em sua terra os pretendentes disputam a mão de Penélope, que espera pelo marido. Você não precisa ter lido Homero, a Odisseia. Ítaca faz parte do nosso imaginário. O eterno retorno, o difícil retorno, às vezes o impossível retorno. Retorno a Itaca, dos irmãos Pretti e dos primos Parente, é um filme farol do novo cinema brasileiro, joia rara descoberta na vitrine da Mostra Aurora, em Tiradentes, e a Ítaca de Laurent Cantet nos leva ao universo de Cuba, que, como Alice de Andrade mostra em Vinte Anos, é um estado de espírito. Christiane, no diálogo com Aida – “Essas travessias, essas pessoas que procuram suas casas, suas Ítacas, vêm de uma sequência de trabalhos que tenho feito. Utopia.doc é sobre isso. A Floresta Que Anda e o Moving People, também. Não há como olhar para o mundo de hoje e não assumir que muitas pessoas estão ficando sem lugar. O projeto é sobre isso. É sobre quem atravessa, mas também sobre quem está parado, quem está há anos nessa linha de fronteira, que já não consegue ir para a frente nem para trás. Tanto Ulisses como Penélope vivem isso. Ele parece que está avançando, mas está sempre recuando; ela espera um movimento de mudança que nunca chega…” Um pouco à maneira de Bia Lessa, Christiane cria um espaço cênico vigoroso. Nós, o público, assistimos à peça de dois ângulos – a ilha de Calypso e Ítaca. Somos convidados/intimados a mudar de lugar. O gestual, os embates físicos e verbais, em português e francês, são fortes, mas a dramaturgia, no limite, é fraca. O que diretoras como Christiane nos dizem é que o teatro tradicional talvez não dê mais conta da representação do mundo, que é preciso inventar novas formas, novos espaços. Christiane costuma trabalhar no registro de uma pesquisa que engloba teatro e cinema. Gosto muito do corte seco de outras peças dela, mas o cinema, a imagem gerada e projetada, dessa vez me pareceu meio acessória, não orgânica como foi em outras montagens (e como é na Navalha na Carne Negra). Teatro ou artes visuais? Performance ou representação? Mas eu confesso que empaquei foi com a água. Todas as mulheres são Penélopes, todos os homens são Ulisses. Ítaca é sobre a violência contra a mulher, e não apenas. É sobre o questionamento do herói. Ulisses admite que saqueou cidades e matou seus habitantes, que partilhou as mulheres e as riquezas para que ninguém fosse privado do saque. Christiane diz que está falando do Brasil – de Lula? A água transborda da peça – água de onde viemos, que está dentro de nós. Água vertida como lágrima no horror da violência e da guerra. Mas algo não funcionou entre a conceituação e a execução, porque eu, pessoalmente, vendo aquela gente rolar na água e a água avançando para a plateia – no final, as duas bancadas ficam de frente uma para a outra e a ação ocorre no meio, que forma uma (mini) piscina -, não pude me furtar de pensar. Apesar da chuva, estamos em outra (pré)crise hídrica, com reservas no limite. Essa água está sendo reaproveitada? O pensamento tornou-se insuportável. Ítaca me exauriu, sem me dar muita coisa em troca.