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Isabelle, e o futuro chegou

Luiz Carlos Merten

25 Dezembro 2016 | 11h30

PORTO ALEGRE – Nunca é cedo demais para filosofar, diz Natalie/Isabelle Huppert em L’Avenir, O Que Está por Vir, quando um amigo professor presenteia seu neto recém nascido com uma introdução aos escritos de Platão. Gostei demais do filme de Mia Hansen-Love quando o vi, em fevereiro, na Berlinale. Num filme chamado O Futuro, sobre o processo de transformação de uma mulher madura, me encantou a mise-en-scène, baseada no movimento. É um filme muito elegante, muito bem construído e nem precioso dizer que bem interpretado – por Isabelle. Ganhou o prêmio de direção em Berlim, e depois, em maio, o mesmo prêmio foi para Olivier Assayas, marido de Mia e pai de sua sua filha Vicky, por Personal Shopper, com Kristen Stewart. Gosto muito de Assayas, mas neste caso gostei mais do filme de Mia, que não tive tempo de rever e, por isso, estou escrevendo de memória. Isabelle/Nathalie leciona filosofia e só o cinema francês para nos propor um filme cuja protagonista vive falando de conceitos filosóficos. Devotada ao ensino, aos alunos, Nathalie é casada com um professor. Vive o que parece uma existência equilibrada, feliz, até o momento em que ele anuncia que tem outra, mais jovem, e está partindo. Nathalie acusa o golpe e, para complicar, sua mãe (Edith Scop, a atriz mítica de Leos Carax, Holy Motors) está mal, mas o filme não é sobre uma mulher à deriva, mas – para permanecer no linguajar filosófico – é sobre sua ‘reificação’. Mia Hansen-Love sem,pre filmou jovens (o DJ de Éden) e aqui faz o que não deixa de ser um exercício de futurologia, projetando-se nessa mulher mais velha. Nathalie se envolve com um estudante, e eu não vou entrar em detalhes sobre esse envolvimento – olha o spoiler -, e chega a ir para uma casa fora de Paris, onde a garotada está reunida. São cenas muito bonitas e o gato da mãe desaparece – não lembro o nome dele, mas é sugestivo. Tudo muito banal, cotidiano, mas pleno de significados nas entrelinhas. Talvez cometa um sacrilégio, com tanta gente gostando de Elle, de Paul Verhoeven, também com Isabelle Huppert, mas havia amado o filme, quando o vi em Cannes. Ao rever na Mostra, no pré lançamento, não é que tenha me decepcionado – o filme é ótimo -, mas certamente não é o ‘meu’ Verhoeven. Sem suas fantasias científicas em Hollywood ele talvez não chegasse a Elle, da mesma forma que seu livro sobre o estupro de Maria, a mãe de Deus, por um tribuno romano, também pode ter sido decisivo para o outro estupro que abre a história da ‘bitch’ que conduz com mão de ferro seu negócio de videogames. Tenho de ver Elle uma terceira ou quarta vez porque, no meu imaginário, gosto muito mais do filme anterior de Verhoeven, sobre a judia que se infiltra entre os nazistas – A Espiã. Isso posto, O Que Está por Vir segue muito vivo na minha lembrança, e espero que permaneça quando for revê-lo, na volta a São Paulo. O que não há dúvida é que Isabelle, pela dupla performance, pode muito bem ser a melhor atriz do ano que se encerra, por mais que goste da Adriana Ugarte do filme mediterrâneo de Pedro Almodóvar – Julieta. Com o ano chegando ao fim, é tempo de selecionar meus dez mais de 2016. Pretendo ver, mais uma vez, Elle, porque o filme não está com jeito de ficar no meu Olimpo com O Cavalo de Turim, Os Campos Voltarão, Aquarius, Boi Neon etc.