Irmãos e heróis
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Irmãos e heróis

Luiz Carlos Merten

14 de fevereiro de 2014 | 22h33

 

BERLIM – Havia escrito o texto abaixo para a edição de amanhã do Caderno 2. Para mim, já é sábado – estou três horas adiante do Brasil, No domingo serão quatro. O texto estava pronto para ser enviado quando a vitória do Brasil no prêmio da crítica – na seção Panorama, com Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro -, me levou a reformular o que havia escrito. Mas não deletei, o que me leva agora, de volta ao hotel, a postar, porque o texto inclui considerações sobre a competição que quero compartilhar com vocês. Vamos lá:

Luiz Carlos Merten/BERLIM

E no último dia da competição – ontem -, a Berlinale fechou um ciclo e abriu outro. Logo no começo, o repórter do Estado se perguntara se seria possível que Jack, do alemão Edward Berger, fosse ganhar o Urso de Ouro? Berlim sempre contou muitas histórias de pais e filhos, mas este ano foram histórias de irmãos. O garoto de Jack, face à irresponsabilidade da mãe, assume para si a educação do caçula. É um pouco como Donato/Wagner Moura, guardião de Airton em Praia do Futuro, de Karim Aïnouz. Para se assumir e viver sua história de amor, Donato abandona Airton e viaja para a Alemanha, distante como o Polo Norte, lhe atira na cara Jesuíta Barbosa, quando o reencontra. O irmão mais velho deixou de ser super-herói, como Jack talvez deixe de ser um dia para o irmão dele.

Em Macondo, de Sudabeh Murtezai, nascida na Alemanha e criada no Irã, de pais iranianos, o garoto também é arrimo de família. Sente-se responsável pela mãe, pelas duas irmãs, mas no fundo é uma criança – tem 11 anos. Devotado à lembrança do pai, que em sua cabeça é um herói – mas nunca sabemos se é mesmo -, ele termina fazendo coisas terríveis com um veterano que voltou estropiado da guerra. Na narrativa de Mortezai, o garoto precisa matar metaforicamente o pai, como o protagonista do filme argentino de Celina Murga – La Tercera Orilla. Destruir a casa num filme, ou enterrar o relógio paterno no outro, tem o mesmo sentido.

Macondo pode não ser um grande filme, mas é bom, e tem a cara de Berlim – criança, imigração, problemas sociais -, tudo isso e mais qualidade estética, bem como a Berlinale gosta, independentemente de quem está à frente do júri. Este ano, é o ator, roteirista e produtor James Schamus, parceiro de Ang Lee. Fizeram muitos filmes juntos. Alguns abordam a homossexualidade, que pode não ser o tema dominante do filme de Karim, mas está lá. Isso poderá favorecer Praia do Futuro, quem sabe?

Os melhores filmes da competição nessa Berlinale mostraram jovens, famílias. Favorito de quase todo mundo – é bom e palatável para a maioria -, Boyhood,. de Richard Linklater, prossegue com a preocupação do diretor pelo tempo. A ideia parece simples, mas nunca foi executada como ficção, somente como documentário. Na ficção, o que mais se aproxima do que Linklater faz é a série autobiográfica de François Truffaut com Jean-Pierre Léaud, Mas Truffaut segue Antoine Doinel por um período longo, e em muitos filmes. Linklater também seguiu Ethan Houve e Julie Delpy na série ‘Antes’ – do Amanhecer, do Por do Sol e da Meia-Noite. Em Boyhood, vemos o garoto, num único filme, crescer e dizer adeus à infância. Linklater filmou seus atores em 2002 e 2013, para estrear agora em 14. Como ele contou, as maior dificuldade foi conseguir financiamento. Como assim, parar uma produção por 12 anos? E o investimento? Um dos possíveis investidores, num grande estúdio, chegou a lhe dizer que não era banco para financiar a longo prazo.

O próprio Grand Budapest Hotel, de Wes Anderson, que abriu o festival há dez dias, mostrou o rito de passagem de um garoto para retratar, com base em escritos de Stefan Zweig, o fim de uma época e o início de outra. O tempo foi o grande personagem desta Berlinale, até no longa de Alain Resnais, Amar, Beber, Cantar. Aos 91 anos e mesmo preocupado com a morte, Resnais faz filmes cada vez mais ‘leves’. Essa leveza é encantadora, produto da sua fé na arte e na vida, mas também não deixa de ser decepcionante – o júri da Fipresci não pensou assim. Os melhores filmes de Resnais, no começo de sua carreira, são mais graves, sombrios – Noite e Neblina e Hiroshima, Meu Amor. Mas o tempo está lá, em Resnais, teatralizado na história desses três casais que vivem num cenário de artifício. A Berlinale anuncia hoje (sábado) seus prêmios, mas prossegue amanhã, com a gala de uma comédia com Catherine Deneuve – Dans la Cour, de Pierre Salvadori. Ainda tem corrida, e com novidades, portanto.

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