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Irmã Dulce (o filme)

Luiz Carlos Merten

13 de novembro de 2014 | 00h28

Tentei desesperadamente postar de Salvador, aonde foi assistir a Irmã Dulce e fazer entrevistas com o diretor e o elenco do filme. Não houve jeito de acessar o blog. Houve uma migração, devem ter enviado as informações para meu e-mail do Estado, que travou e a consequência é que fiquei bloqueado no meu blog. Só consegui entrar no novo endereço de volta à redação, graças a um colega que me forneceu o mapa da mina. Fui informado de que a nova migração vai permitir o retorno dos comentários. Aleluia! O post que vocês vão ler agora foi escrito ontem pela manhã em Salvador. Como não conseguia postar, redigi o texto e o enviei a mim mesmo como e-mail, para recuperar depois. Vamos logo ao ponto – ao do que não gostei em Irmã Dulce, o filme, porque de resto gostei muito, até mais que esperava. Todas essas cinebiografias recentes que estão tomando de assalto o cinema brasileiro terminam do mesmo jeito, e isso já me está exasperando. Trinta e Tim Maia terminam com o primeiro desfile do carnavalesco e o último show, com direito a letreiro informativo. Irmã Dulce termina com um pequeno documentário, querendo mostrar a permanência da religiosa e chamando para suas obras assistenciais. Dá um caráter de hagiografia, de registro oficial, que não me agradou. Não sei como deveria terminar – não sou eu o criador. Mas não gostei do que vi, como vi, porque, de resto, Irmã Dulce não é nada hagiográfico. E é emocionante. Gostei – menos, é verdade – de Trinta,mas pelo próprio recorte da biografia do carnavalesco Joãosinho Trinta por Paulo Machline, o filme dele não tem a vocaçãso de grtande obra popular de Irmã Dulce. Para mim, ou por mim, é coisa para repetir Dois Filhos de Francisco. Como todo filme de Vicente Amorim, é sobre caos e desordem, sobre a necessidade de se colocar ordem no caos. Algo se passou, de cara, para mim. Aquelas primeiras imagens de Maria Rita ainda menina, bem antes de virar Irmã Dulce, acompanhando a mãe que faz sua peregrinação, ajudando os pobres. É incrível como certas imagens estão gravadas a ferro e fogo no imaginário da gente, no meu imaginário. A menina arranha com a mão a parede precária dos casebres, do mesmo feito que Irmã Dulce, mais tarde, vai repetir o gesto, indo ao encontro do papa. Emmanuelle Riva, Hiroshima Meu Amor. Juliette Binoche, A Liberdade É Azul. Elas dileceram as unhas, tiram sangue dos dedos para que uma dor fíosica aplaque uma dor maior, a da perda – do amante alemão, do marido e do filho. Seria muita coincidência se Vicente Amorim utilizasse duas vezes o mesmo recurso a troco de nada. Comentei com ele, que me disse simplesmente – Hiroshima é seu filme preferido, como Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti, é o meu.  Irmã Dulce, na ficção do filme, carrega pela vida o duplo impacto – da descoberta da pobreza e da morte da mãe (extraordinária Glória Pires). Uma vida de purgação, dedicada a minorar o sofrimento dos outros. E o próprio? Irmã Dulce vira pária dentro da sua Igreja. Nunca odiei tanto Irene Ravache, mas é porque ela está convincente como aquela madre que quer manter a disciplina do seu convento e se horroriza à simples menção de que Irmã Dulce e Madre Teresa possam ter tudo a ver. Uma madre medíocre, que segue a disciplina, e uma freira subversiva – dos códigos, de todos os códigos. Como personagem, a vida de Irmã Dulce é a mesma linha dramática, interrompida por lembranças. Ela não tem arco dramático. O desafio de Vicente Amorim e de sua corroteirista Anna Muylaert (tem um cara que também escreveu e cujo nome esqueci, sorry) é criar o arco. Como? Por meio da ligação de Irmã Dulce com o filho, ‘João’, e a madre Fausta, de seu convento (não a madre de Irene Ravache). A Irmã Dulce do filme, como a da vida, é guerreira. Desafia tudo e todos e tira das pessoas, dos poderosos, o que precisa para seu apostolado. Mas sem a transferência para essas figuras laterais, que a completam, o filme não levantaria voo. Amei a cena da ida ao terreiro, o encontro com a mãe de santo. É uma cena que tem tudo a ver com a do encontro com o papa. Em ambas, o pivô é João, e o encontro com o papa é o reencontro com o filho, que Irmã Dulce já perdeu quando vai – uma freira! – atrás dele no terreiro. Guardem essas observações para quando virem Irmã Dulce. Depois das pré-estreias em Salvador, no Recife e em Fortaleza, o filme estreia amanhã no Norte/Nordeste, num raio que vai de Salvador a Manaus, em 108 salas. No Centro/Sul, a estreia será somente dia 27, e ainda está sendo avaliada. Quantas salas? Muitas, com certeza. De volta à cena no terreiro, o diálogo cheio de entendimento daquelas duas mulheres é uma coisa poderosa. É o meu momento Iafa Britz dentro do filme. Iafa é judia e já produziu, além desse filme, Nosso Lar, sobre espiritismo. O entendimento entre raças e religiões é, sim, possível, como não? E o filme tem grandes atuações – de Bianca Comparato e Regina Braga, que fazem diferentes fases da vida de Irmã Dulce (mas compõem a mesma personagem), e da dupla que faz João e Madre Fausta, Amaurih Oliveira e Malu Valle. Ele é um ator baiano, participou do Sexo e as Nega e me disseram que teve um rápido nu frontal na série. Na Globo? Duvido… Mas o garoto é bom e já teve uma cena sexy na mesma Globo – o estupro consentido com Patricia Pillar em Amores Roubados, a minissérie de George Moura. Baiano arretado. Brinquei com ele. Amaurih está indo fazer a festa (das ficções) na Globo. Ainda estou sob o impacto  de Irmã Dulce. O filme vai fazer sucesso? Espero…