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Irene, Ricardo e os outros (para começar a prantear 2017)

Luiz Carlos Merten

07 Janeiro 2017 | 11h40

RIO – Cá estou, desde quinta. Embora em férias, não tenho parado. Vamos por partes. Ainda estávamos no avião quando Dib Carneiro viu no Face de Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, que Irene Stefânia havia morrido. Tive um dia muito agitado, indo à barra para entrevistar Renato Aragão, na casa dele, e à noite jantamos na Trattoria com a sobrinha do Dib, Elisa, e o Júnior, namorado dela. Ao chegar no hotel, tentei confirmar a morte de Irene. Nada. Ontem, de novo, nada, mas o Vilmar Ledesma, que o Dib também tem no Face, postou que um monte de gente estava dando depoimento e se referindo a ela no passado. Hoje, finalmente, no Globo, vi a confirmação, na coluna de Ancelmo Góis. Irene Stefânia! Ela foi uma das mais luminosas estrelas do cinema brasileiro nos anos 1960. Lance Maior, Fome de Amor, Os Paqueras, As Armas, Cléo e Daniel, Azyllo Muito Louco, Mão Vazias. Irene tinha aqueles olhos azuis e o rosto cheio de sardas que lhe davam um charme especial. Contracenou com Leila (Diniz) e, se não chegavam a ser o contraponto uma da outra, talvez fossem complementares. Leila era mais persona, Irene era mais atriz. No fim, dos anos 1970, deu uma parada e só ressurgiu quase dez anos depois, com Anjos do Arrabalde, de Carlos Reichenbach. Irene foi musa de Sylvio Back, Nelson Pereira, Astolfo Araújo, Reginaldo Faria, do Bigode. Formada em filosofia (antes de ser atriz), foi sempre avessa ao holofote. Virou terapeuta afastou-se da mídia, mas não renunciou à interpretação. Foi atriz do Satyros. Eu amava Irene Stefânia. Não sou louco de não reverenciar Vidas Secas e Memórias do Cárcere, mas o ‘meu’ Nelson sempre foi Fome de Amor. Nelson revolucionário desconstrói a narrativa e elabora seu poema à latinidade. Irene e os outros – Leila, Arduíno (Colasanti), Paulo (Porto). A câmera de Dib Lutfi. Imagens que ainda me assombram, tanto tempo depois. Muita gente se foi em 2016. Muita gente no fim do ano. Tivemos a trégua do réveillon e já se foram Irene Stefânia e Ricardo Piglia. O argentino morreu ontem aos 75 anos, de parada cardíaca, mas há anos vinha sofrendo de uma doença degenerativa. Piglia escreveu Plata Quemada, que virou filme de Marcelo Piñeyro, com aquele elenco – Leonardo Sbaraglia e Eduardo Noriega. Foi parceiro de Hector Babenco em Coração Iluminado e não é agora, porque ambos estão mortos, que vou passar a gostar do filme. Mas Plata Quemada…! O ano mal começou e já temos mortos para chorar. É até desrespeito dizer isso e não lembrar as chacinas nos presídios de Manaus e Roraima. E como disse ‘sua excelência, o presidente’? Chamou de ‘acidente’. E seu secretário da Juventude? Filho de policial, assumiu que era coxinha e acrescentou que tinha de haver uma chacina dessas por semana. Demitiu-se e já foi tarde, mas o outro, o Drácula… É o ó.