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Invencível

Luiz Carlos Merten

28 Julho 2012 | 09h41

Sábado pela manhã, estou sozinho em casa. (Nem contei que, na quinta, comecei a fazer Pilates, por ordem do médico. Estou moído até agora.) Levantei-me, tomei café e fui dar uma zapeada na TV paga. Entraram as imagens finais de ‘Seabiscuit’. Vi e gostei do filme de Gary Ross, mas adoro ver cenas isoladas de filmes porque às vezes elas me dão ideias. A cena era a que precede a corrida final, quando o cavalo sai em último e vai ganhando posições, até chegar ao primeiro lugar. O que Seabiscuit e seu jóquei, Tobey Maguire, vão fazer será história e a música confere um tom épico. Tudo ali é feito de detalhes, pequenos detalhes, até a entrada de Jeff Bridges na tribuna, cumprimentado pelos demais donos de cavalos. A propósito, tenho uma implicância com Jeff Bridges, admito. Nunca engoli o boicote dele a Elia Kazan, que, com todos os erros que cometreu na vida – e impulsionado por eles -, foi muito maior diretor do que Jeff jamais será, como ator. E eu realmente não gostei daquele filme do cantor country que lhe deu o Oscar. Fechado o parêntese, ele é maravilhoso em ‘Seabiscuit’. E, de volta à cena, de uma forma muito particular ele me fez lembrar o desfecho de ‘El Cid’, de Anthony Mann, para mim o maior e mais belo épico do cinema. Volta e meia repasso no meu imaginário aquelas cenas – Rodrigo morreu às vésperas do combate decisivo e Ximena, a sublime Sophia Loren, comanda, chorando, o grupo que o amarra àquele cavalo branco, para que ele comande – pela última vez! – seu povo e assombre o inimigo. O cavalo avança em contraplongê e sobre a imagem Mann lança na trilha aquele órgão genial de Miklos Rosza. Gary Ross deve ter visto ‘El Cid’, porque sua tomada é exatamente contrária, um plongê, a câmera bem de cima, pegando a largada dos cavalos e o Seabiscuit que dispara em último lugar. É um filme muito bonito. Emocionante. Baseia-se no livro de Laura Hillenbrand e se lhe interessa saber ela também é autora de ‘Invencível’, outra história real de coragem, sobrevivência e redenção. A história de um tenente da Força Aérea dos EUA. Numa tarde de maio de 1943, o avião dele, atingido pelos japoneses, cai no Pacífico. O cara havia sido uma criança rebelde, numa pequena cidade da Califórnia. Poderia ter sido um marginal. Salvou-o o atletismo. Salvou-o, naquele oceano, a força interior – a invencibilidade. Sob certos aspectos, ‘Invencível’ parece uma repetição de ‘Seabiscuit’. Ambos foram, ou parecem ter sido, escritos para cinema, como grandes aventuras. Gostaria muito que um desses Spielbergs da vida vertesse o livro para o cinema. Ainda sobre a corrida de ‘Seabiscuit’ – há um plano em que Tobey Maguire, ou seu dublê, deita-se sobre o lombo do cavalo, mas o faz um palmo acima dele, como se voasse. Me veio o garoto na cavalgada final de ‘Os Rebeldes’, que Mark Rydell adaptou de William Faulkner. Sobre a imagem, as imagens, nos dois filmes, entra a voz do narrador, refletindo sobre como a corrida mudou a vida das pessoas. Gary Ross deve ter visto os filmes de que gosto. E foi marcado, como eu, por eles.