As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Indie

Luiz Carlos Merten

22 Setembro 2013 | 12h55

Não tinha muitas referências de Jiseul – não tinha referência nenhuma -, mas sabia que o filme do coreano Muel O foi o vencedor da categoria World Cinema Dramma no Festival de Sundance. Resolvi arriscar – havia gente pelo ladrão no Cinesesc, e quando saí a fila era muito maior ainda para ver o programa seguinte, que acho que era um filme de Jean-Pierre Brisseau, no CineSesc. Confesso que, se não tivesse corrido para o Parque da Independência para (re)ver Os Gigantes da Montanha, não teria perdido o programa de ontem das 22 h do Indfie 2013. Fiquei tão impressionado com Heli, de Amat Escalante, em Cannes, que quero muito rever o filme. O bom é que tanto Heli quanto Um Episódio na Vida de Um Catador de Ferro, de Danis Tanovic, também no Indie, foram comprados para o Brasil. Mas meu tema é Jiseul. Não sabia o que esperar, não conhecia história, nada. O filme inspira-se numa história real ocorrida na Coreia, após a 2.ª Guerra, em 1948. O Exército ocupante (dos EUA), associado a remanescentes das Forças Armadas coreanas, criou uma zona de exclusão na ilha Jeju. Quem fosse encontrado de dentro de uma determinada faixa seria considerado ‘comunista’, podendo ser sumariamente executado. O filme dá conta desse bárbaro massacre. O diretor Muel O é de Jeju Island. Imagino que sua motivação pessoal para fazer o filme deve-se ao fato de ter mortos na família. Mesmo que não tivesse, o arbítrio e a violência seriam suficientes para provocar sua indignação. Haveria muitas formas de contar essa história. A dele é a mais difícil, e não por acaso houve verdadeira fuga da sala. Muita gente saiu. Muel O não cria propriamente personagens para o espectador seguir. O filme é muito mais uma experiência formal – audiovisual. Fotografia em preto e branco, música – fui pesquisar e descobri que são dois caras, Jeon Song-e e Seo Ji-sun -, tudo de uma suntuosidade acachapante, mas ao mesmo tempo o filme é de uma aridez emocional rarefeita. Seguimos o massacre no campo de neve e os fugitivos que se escondem em cavernas. Uma cena de câmera parada, no interior exíguo de uma dessas cavernas, é exemplar. Homens e mulheres falam, e falam. Não se mexem, porque não há espaço. Expõem sua fragilidade. Sei lá quanto dura a cena – não contei -, mas foram bem uns dez ou 15 minutos. Vou sair pela tangente. Não sei se gostei, mas gostei de ter visto. Não sabia dessa história – e o letreiro final informa que os EUA guardam (guardavam) segredo do episódio – e ela é forte, mas foi o PB digitalizado e a trilha, lembrando as peças sinfônicas de Michael Nyman para Peter Greenaway, que me deixaram chapado. E o porco? Um dos velhos habitantes abandona a caverna decidido a alimentar seu porco. O animal só tem a ele no mundo. Quando ele conta isso, percebemos que sua ligação com o animal é mais forte que com as pessoas. Essa história é desconstruída temporalmente. Vemos primeiro o porco sendo lançado num caldeirão incandescente, depois a preocupação do velho e sua corrida atrás do soldado que carrega o bixão. Fiquei impressionado e depois, ao assistir à montagem de meu amigo Gabriel Villela do texto de Luigi Pirandello, com o Grupo Galpão, dei-me conta de que o discurso ‘filosófico’ do Mago Cotrone na peça esclarecia o próprio filme. Muito interessante como as coisas se oferecem (e completam) no imaginário da gente. Não sei o que passa hoje no Indie, mas vou pesquisar e, quem sabe, arriscar, embora minha meta seja assistir a Cabaré Biblioteca Pascal, à tarde, no Frei Caneca.