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In memoriam

Luiz Carlos Merten

04 de março de 2014 | 15h17

Não acompanho, mas me contam que, nas redes sociais, há todo um debate pela inserção, no bloco In Memoriam do Oscar, de Eduardo Coutinho e pela ausência de Alain Resnais, no mesmo bloco. Eu confesso que me emocionei quando a cara do Coutinho surgiu no telão, mas se trata de uma contradição, em termos. Meu amigo Dib Carneiro diz que o próprio Coutinho teria detestado. Ele fez uma pesquisa para o roteiro que escreve para a festa de premiação da APCA, e a Associação quer homenagear o grande documentarista. Dib selecionou uma frase típica de Coutinho, em que ele critica a manipulação do público por meio de imagens e sons, e isso é coisa que Hollywood faz a três por dois. A gente, com esse complexo de colonizado, é que fica exultante quando vê o reconhecimento do talento nacional, em especial daquele que admiramos. Vibrei, confesso, e naquele momento, com música adequada, rolou a lágrima que faltou quando redigi o necrológio no jornal. Da mesma forma, não creio que tenha sido para esnobar Resnais que a Academia o deixou de fora. O bloco já deveria estar pronto quando ele morreu, na véspera, dia 1.º Tem gente que acha Resnais biscoito fino demais para Hollywood, mas eu só quero dizer que o cinemão assimilou muito bem as lições narrativas do grande cineasta. Resnais instituiu um padrão de montagem para rupturas de tempo e espaço que, imediatamente, inspirou grandes diretores. Richard Fleischer fez The Boston Strangler/O Homem Que Odiava as Mulheres e Stanley Donen, Um Caminho para Dois, ambos nos anos 1960, logo depois de Hiroshima, Meu Amor e No Ano Passado em Marienbad. Acho que o motivo talvez tenha sido de ordem prática, mas admito que, com Coutinho, gostaria de ter visto a cara de Resnais naquele telão. Com todas as diferenças estéticas, seu lugar era ali. Como me disse sua viúva, Sabine Azéma. “Alain c’est un magicien.” Um mágico prestidigitador de imagens e sons, e isso Hollywood admira. Respeita?

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