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Imaginai! Por Miguel Falabella

Luiz Carlos Merten

23 de agosto de 2019 | 10h10

GRAMADO – Vivi ontem momentos muito intensos aqui no Festival de Gramado. Achei fortíssimo o concorrente chileno Perro Bomba, que o jovem diretor Juan Cáceres definiu no palco como um filme ‘callejero’, na tradição do Cinema Novo. Feito sem roteiro, com a câmera na mão, acompanha um haitiano que sobrevive na rua de Santiago. Em janeiro, quando lá estive, fiquei surpreso com o número de excluídos, gente cavoucando no lixo ou vendendo nos semáforos, uma coisa que não se via antes no Chile, mas que agora deve ser o modelo que o ministro Paulo Guedes espera atingir, quando se fixa no país transandino para defender a viabilidade de suas reformas no Brasil. E isso que o Chile é aquela faixa de terra entre a cordilheira e o mar, não o nosso gigante adormecido. Gostei demais do ator de Perro Bomba, que disse que sempre sonhou, na zona rural do Haiti, em ser ator e agora ali estava realizando seu sonho, e num festival importante como Gramado. Chama-se Steevens Benjamin, tem forte presença cênica, carisma. Veio o intervalo e o curta de animação Sangro, que o diretor Tiago Minamisawa foi apresentar de mão dada com o namorado, agradecendo-lhe por ter aberto sua vida (e o coração) para que ele fizesse seu filme que encara o desafio (e as dificuldades) de ser soropositivo num mundo que, cada vez mais, fecha-se para o outro. Tiago lembrou que o Brasil, que já foi referência mundial no tratamento da aids, hoje está sendo sucateado também nesse setor. E vieram Miguel Falabella e a equipe de Veneza. Miguel leu a Carta de Gramado, documento firmado por mais de 60 entidades de classe em defesa do cinema brasileiro. Assisti a Veneza e fui ao Di Pietro para desfrutar o bufê de sopas e um bom vinho com o Carlos Eduardo Lourenço Jorge, de Londrina. Fiquei pensando se Rubens Ewald Filho terá tido tempo de ver Veneza, mesmo que fosse numa cópia não finalizada. Rubinho, que era a alma da comissão de seleção, amava o cinema italiano, e Veneza é a homenagem de Falabella à comédia italiana, a Federico Fellini, ao circo, às putas tristes de Gabriel García Márquez. Um filme lindo que nos convida a embarcar numa gôndola poética, numa viagem onírica. Imaginai! O bordel da Gringa/Carmem Maura, agora gerenciado pela Rita/Dira Paes. Tonho/Du Moscovis faz o fornecedor que recebe seu pagamento em sexo e a Gringa, que está cega, e morrendo, quer ir a Veneza em busca de um amor do passado. Tonho bola o jeito de realizar o sonho – pela via da imaginação. Confesso que nunca fui muito fã do Sai de Baixo – nem via – e o que vi de teatro do Miguel diluiu-se na memória. Mas o Veneza! Carmem, Dira e as outras. Carol Castro, um assombro de beleza, Danielle Winits e os bofes. O melodrama encenado no circo – A Pecadora! Gabriel Villela tem de ver Veneza, o Brasil tem de ver Veneza, eu tenho de rever Veneza. O filme e, agora, um desejo, a cidade das gôndolas, à qual não vou há mais de 20 anos.

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