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Imaginai! (E ‘nós’ estamos no Jabuti)

Luiz Carlos Merten

06 Outubro 2018 | 09h47

Dib Carneiro e Rodrigo Audi são finalistas ao Jabuti de livro de arte por Imaginai! O Teatro de Gabriel Villela. O livro analisa a riqueza e complexidade da obra do grande diretor – até eu estou entre os autores, dissecando a relação de Gabriel com o cinema. Akira Kurosawa, Sergei Paradjanov. O próprio Gabriel reflete sobre sua criação, analisando cada uma de suas montagens. Eu me lembro! E o livro é fartamente ilustrado. Não sei quais são os demais finalistas, nem quem são os votantes, mas, para mim, já ganhou – ganhamos! Gabriel estreia no começo de novembro sua nova criação, no Sesc Pinheiros. Estado de Sítio vai marcar o retorno do teatro dele a Albert Camus, depois de Calígula (em que Thiago Lacerda estava poderoso). A peste, a Morte, maiúscula, como personagem, interpretada por Cláudio Fontana. Anos atrás, Gabriel e Dib foram ao México numa viagem de pesquisa justamente no 2 de novembro, Dia dos Mortos. Firmin, Malcolm Lowry, A Sombra do Vulcão. Imagino que a montagem vá estar impregnada por essa experiência, mas gostaria muito que Gabriel visse, ou revisse, antes da estreia, dois filmes. Um deles é, claro, O Sétimo Selo, em rigoroso PB, a volta do cavaleiro da guerra, seu jogo de xadrez com a Morte, a procissão dos penitentes, a peste. O outro é Viva – A Vida É Uma Festa, da Pixar, que ganhou o Oscar de animação deste ano. Todas as cores do México. Estado de Sítio tem tudo a ver com o momento atual brasileiro. A peça remete à turbulência da Guerra Civil espanhola, da qual o generalíssimo Franco saiu vitorioso, apoiado pelos fascistas e pela Igreja Católica. Jean-Louis Barrault, a quem a peça é dedicada, foi seu primeiro diretor e o primeiro Diego. A ação passa-se em Cadiz e tudo começa com a passagem do cometa – como em O Grande Circo Místico, de Cacá Diegues, que representa o Brasil no Oscar. Diego, Vitória, o Juiz – seu pai -, a Peste, sua secretária (a Morte), o bêbado Nada, o governador, vários alcaides e o coro. Não sei se Gabriel vai colocar esse mundaréu de gente no palco, até porque outras figuras secundárias também têm falas, e importantes. Uma epidemia assola e isola a cidade. Diante da inevitabilidade da morte, que acende a revolta, recrudesce o autoritarismo – ‘A vontade do governador é que nada aconteça em seu governo e que tudo continue bem, como sempre foi.’ Balthus criou o cenário e o figurino, Arthur Honegger, a trilha, tudo muito chic, mas o fracasso foi grande, a crítica da época caiu matando e a peça tornou-se maldita. Estou louco para ver Estado de Sítio, mas a estreia, até onde sei, será durante o Festival do Rio e eu terei de ver depois. Quanto a Imaginai!… É um livro de arte que honra qualquer estante.