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Imaginai! (E Gabriel Vilela logrou mais um Shakespeare…)

Luiz Carlos Merten

23 Agosto 2015 | 12h01

Desde quinta-feira estou tentando arranjar tempo para postar sobre a nova montagem de meu amigo Gabriel Vilela. Mas não é o amigo escrevendo. É o crítico. Ele conseguiu, de novo. Escrevi um texto s0bre teatro e cinema na obra de Gabriel, para um livro que será editado pelo Sesc. Tenho acompanhado, mais ou menos de dentro, por meio de meu amigo Dib Carneiro, o processo criativo de Gabriel. Irrito-me quando leio/ouço simplificações sobre o barroco de Gabriel, como se ele, mineiro, tivesse absorvido suas lições olhando ops altares da igreja de Carmo, onde nasceu. Gabriel ama Shakespeare, Calderón e Pirandello. Imaginai e A vida é sonho são seus mantras. Suas referências no cinema são o melodrama e o circo. Um pé em Visconti e outro em Fellini. E, claro, até por amar tanto Shakespeare, sua estética teatral é impregnado pelo cinema de Kurosawa – mas seu outro mestre é Parajanov, que eu gosto de grafar à portuguesa: Paradjanov. Escrevi, como disse, um texto sobre a produção de Gabriel na última década. Poderia escrever outro texto inteiro só sobre A Tempestade. É uma das últimas, a última peça do bardo. tem gente que não gosta porque, aso invés do banho de sangue habitual, o velho Shakespeare enche-se de comiseração por seus personagens e apazigua seus demônios. Esse apelo ao entendimento de dois grandes artistas, Shakespeare e Gabriel, está na contracorrente da incitação ao ódio no Brasil atual. Havia acabado de ler o novo livro-reportagem de Daniela Arbex, Cova 312. Depois do Holocausto Brasileiro, os crimes da ditadura militar. Nas cadeias, os militantes despediam-se dos companheiros cantando ‘Minha jangada vai partir pro mar…’ Não sabiam, se haveria volta, e para muitos não houve. Celso Frateschi, o Próspero de Gabriel, esteve nas prisões da ditadura, cantou muito a música. Ouviu-a. Não consigo nem imaginar a emoção que representa para ele ouvir de novo. Gabriel funde o texto clássico com suas raízes brasileiras. Muita música. Villa-Lobos, sim. O cancioneiro brasileiro, e mineiro. É totalmente apropriado fazer isso e também se auto-referenciar. Há um momento Romeu e Julieta, com certeza em homenagem ao Grupo Galpão. Também cabe porque a peça é considerada uma súmula, o próprio Shakespeare fez um cozido de outras peças (e cenas). Próspero, ilhado com a filha, vê chegar o momento da vingança contra os que o depuseram. A tempestade faz parte de um plano, mas quando a filha, Miranda, se apaixona pelo filho do inimigo, Ferdinando, essa dupla, esse Romeu e essa Julieta, terão um desfecho diferente. Gabriel, nesse período todo, tem sido o mestre da concisão. Suas peças têm durado em torno de uma hora. A Tempestade tem quase o dobro, 1h40.  Nem senti o tempo passar. É um belíssimo espetáculo de prestidigitação. Imaginai. O momento Paradjanov. A despedida dos marinheiros. O figurino certo, um movimento circular e o fado. O que me encanta em Gabriel é que ele faz cinema com recursos de teatro. Movimenta o ator e, de forma hipnótica, constrói travellings e panorâmicas no palco. Tão bonito, tão profundo que alguns reparos são irrelevantes. Queria misturar um pouco A Tempestade de Peter Greenaway, Prospero’s Books, que no Brasil se chamou A Última Tempestade. Em Real Beleza, Jorge Furtado se aproprias de uma frase da peça, quando Francisco Cuoco diz que sua biblioteca é o reino que lhe basta. Greenaway cria texturas visuais, usa telas múltiplas, tudo para nos fazer viajar nos livros (e nas palavras). E o Próspero de Greenaway é o maior de todos, John Gielgud. Para Celso Frateschi, é o fechamento de um ciclo. Quando Paulo Autran fez Próspero, Frateschi era Caliban. Gostaria, eu, de viajar mais nas associações, mas preciso parar. Tenho de correr para o aeroporto. Daqui a pouco embarco para o Rio, onde amanhã entrevisto Armie Hammer e Henry Cavill, por O Agente da U.N.C.L.E. Quero escrever também sobre o Galileu Galilei de Cibele Forjaz e Denise Fraga, que vi ontem. As duas peça estão no Tuca. Perlo espaço dessas duas montagens, é o templo do teatro em São Paulo, mas vou ter de deixar o Galileu para depois.