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I beg your pardon, como?

Luiz Carlos Merten

11 de fevereiro de 2016 | 13h56

BERLIM – Mantenho a procedência, porque estou escrevendo daqui, mas dou um tempo na Berlinale para fazer um daqueles posts que muitos amigos odeiam e me reprovam. Uma briga inútil. Almocei com Orlando Margarido e, após falarmos sobre a coletiva do júri (Meryl Streep) e o novo filme dos Coen (Ave, César!), observei que havia entrevistado ontem, por telefone, Laszlo Nemes, diretor de O Filho de Saul. Orlando brincou. Em gauchês, perguntou – “Fazes parte da crítica falida?” I beg your pardon, como? Orlando me explicou que, como não leio a concorrência, não devia ter visto o artigo de Sérgio Alpendre na Folha. A recepção (quase) unânime da crítica ao filme de Nemes seria a prova de sua falência. O Filho de Saul é manipulador e a prova de que está faltando juízo crítico para contestar decisões de júris de festivais – como, justamente, o dos Coen, que premiou Nemes no ano passado, em Cannes. Taí uma coisa que não repercuti com os irmãos hoje pela manhã. Mea culpa. Mas, prosseguindo, comprei não poucas inimizades e até fui acusado de conspirar para que o prêmio da crítica, na Mostra, não fosse para O Filho de Saul. Realmente, integrei a briga pró Ermanno Olmi e seu belo Torneranno I Prati, Os Campos Voltarão. Até escrevi no blog, em novembro, não há duas semanas, que nutria sentimentos ambivalentes sobre O Filho de Saul. De um lado, é impressionante por essa questão ética que traz embutida. O que ou como mostrar um evento (uma ‘coisa’) tão inominável como o Holocausto. E, sim, Laszlo, seguindo uma via inversa, manipula como o Steven Spielberg de A Lista de Schindler. Encontrei essas mesmas indagações, há meses, na revista Film Comment, quando o número correspondente chegou ao Brasil. Na capa, O Filho de Saul. In The Belly of the Beast. No Ventre da Besta. A revista, sua redação, divide-se. Alguém escreve um texto pró, e é forte. Outro escreve um texto mais forte ainda, e é contra. Certamente, não é um filme para se desprezar. Mas eu também me divido. E não me sinto ‘falido’, não nesse caso, pelo menos. Também não proponho, como novidade, um debate que já é de segunda mão. Como, aliás, a concorrência gosta de fazer, posando de linha de frente.