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Huston, Hitchcock e a psicanálise

Luiz Carlos Merten

04 de fevereiro de 2019 | 21h09

PARIS – Quem me acompanha no blog, na vida – desde que comecei a escrever sobre cinema nos anos 1960, ainda em Porto Alegre -, sabe que nunca fui um entusiasta do John Huston da primeira hora. Não se trata de avalizar o que diziam dele os Godard(s) e Truffaut(s), que era um diretor sem estilo, portanto não era um autor. O próprio Huston sempre gostou de se definir como um contador de histórias, e sua única preocupação era encontrar a melhor maneira de contar cada história pela qual se interessava. Admirador dos existencialistas – chegou a encomendar A Jean-Paul Sartre o roteiro de Freud -, Huston sempre foi atraído por temas – a liberdade, a validade do esforço e a inevitabilidade do fracasso. Mas eu sempre tive a impressão que algo se passou, e foi com Freud, Além da Alma, quando ele descobriu a psicanálise. O ‘meu’ Huston emerge nos anos 1960 e realiza seus melhores filmes – Os Pecados de Todos Nós, Cidade das Ilusões, Roy Bean – O Homem da Lei, O Homem Que Queria Ser Rei, A Sombra do Vulcão, Os Vivos e os Mortos. A esses títulos tenho de acrescentar A Noite do Iguana, quer revi hoje e que me deixou em choque. Era um filme que volta e meia, de alguma forma, me assombrava. Sempre fui fascinado pelo realismo psicológico de Tennessee Williams, que foi adaptado por grandes diretores a quem admiro. Curiosamente, não tanto o Elia Kazan de Uma Rua Chamada Pecado – que foi como Um Bonde Chamado Desejo se chamou nos cinemas brasileiros -, mas o Richard Brooks de Gata em Teto de Zinco Quente e O Doce Pássaro da Juventude e o Joseph L. Mankiewicz de De Repente, No Último Verão. Sempre incentivei Gabriel Villela a montar Tennessee, mas ele, brechtiano e épico, me dizia que não dava conta daquela complexidade. Bobagem – o cara que colocou A Crônica da Casa Assassinada no palco (e foi Dib Carneiro quem adaptou o romance de Lúcio Cardoso) está pronto para abordar os grilhões psicológicos e as áreas sombrias do desejo que atormentam os personagens do dramaturgo. Gostaria muito de ver Gabriel adaptar A Noite do Iguana, até pela ligação afetiva dele com o México. O pastor Richard Burton surta, abandona a igreja e vira guia de turismo, como tal acompanhando a excursão de um grupo de solteironas texana, incluindo a chaperone de uma garota que é a própria encarnação do desejo – interpretada pela Lolita de Stanley Kubrick, Sue Lyon. No hotel em Pùerto Vallarta, Burton encontra a mulher que talvez mais tenha encarnado a libido no cinema de Hollywood – não, não foi Marilyn Monroe, mas Ava Gardner – e Deborak Kerr, que já havia sido uma freira para Huston em O Céu por Testemunha. Deborah é filha de um velho poeta que está morrendo, mas não sem antes escrever o verso perfeito, e tudo é filmado no suntuoso preto e branco de Gabriel Figueroa, que iluminou os filmes do ‘Índio’ Emilio Fernández e a quem John presta homenagem, colocando-o num pequeno papel. Se pudesse, se estivesse no Brasil, correria à minha biblioteca em busca da autobiografia de Huston, Um Livro Aberto, para ver o que ele escreve sobre essa filmagem. Burton, Ava, Deborah e Liz Taylor, na fase em que não desgrudava de ‘Dick’ e com certeza estava no set mítico. Ouso dizer que foi ali, adaptando Tennessee Williams, que Huston gestou sua versão de Carson McCullers, Reflections in a Golden Eye. Os Pecados de Todos Nós! Taylor, Marlon Brando, Julie Harris e aquele filipino que entrou para a história com um só papel, Zorro David, na cena em que conta como o reflexo no olho dourado perturbou Julie e ela cortou os bicos dos seios com a tesoura. A gênese de Os Pecados está em A Noite do Iguana, e eu saí do École 21 para um bar, para tomar um trago esperando a hora de ver La Maison du Docteur Edwardes, que não é outro senão Spellbound/Quando Fala o Coração, da fase de Alfred Hitchcock produzida por David Selznick e com a célebre sequência de sonho criada por Salvador Dali. Nunca tinha visto o filme no cinema. Resolvi dar-me esse presente. Amor, culpabilidade, desejo – e psicanálise. Tudo a ver com o Huston. A sessão foi apresentada por uma escritora e professora, Marie Gil, que eu não fazia a menor ideia de quem era e, além de bonita e jovem, fez uma leitura muito interessante dos símbolos e da personagem de Ingrid Bergman como uma das típicas mulheres que sabiam demais hitchcockianas. Só as descobertas dessa segunda-feira já teriam valido a passagem por Paris, mas na terça, que já começou aqui – estou três horas à frente -, tem mais. Depois eu conto.

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