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Humanismo na tela, mas no set…

Luiz Carlos Merten

02 de junho de 2013 | 11h45

Cá estou de volta à redação do Estado, deserta a esta hora da chuvosa manhã de domingo, exceto por um ou dois da editoria de Esportes e uma garota acho que do site. Cheguei ontem no final da tarde, até sair do aeroporto já era noite. Jantei com meu amigo Dib Carneiro, assisti aos últimos capítulos de Salve Jorge, que havia pedido que ele gravasse. Em casa, no período após cirurgia bucal, havia assistido a alguns capítulos e queria saber como terminaria aquela m… toda. Achei tudo muito ruim, exceto o casal principal, mas confesso que me decepcionei particularmente com a mediocridade da solução aplicada às vilãs Totia Meireles e Cláudia Raia. O Russo até que foi divertido, levando aquele pau da policial sapa e das garotas que escravizara, e que despejaram sobre ele a raiva acumulada. Mas a Totia, e a Cláudia… O strip-tease foi melancólico, a pessoa não tem cintura nem bunda e muito menos consegue ser sexy. Achei metafórico que houvessem uns quatro ou cinco gatos pintados na plateia da boate para aplaudir pobremente. Mas confesso que o fim me pegou, quando Teo conta para o enteado como recuperou a filha, irmã do garoto. São Jorge lhe enviou seu cavalo – já disse aqui que os créditos e a canção de Salve Jorge foram os melhores que vi em anos, na Globo. Glória Peres introduziu com alguma graça neste final o mito – lembrei-me do cavalo branco de Zapata, como representação viva da revolução permanente, um conceito trotskiano que Elia Kazan aplicou no final de seu clássico Viva Zapata!, com Marlon Brando – e segundo ele a ideia veio do roteirista, o escritor John Steinbeck. Por falar em revolução permanente, posso ser um velho sentimental, mas assisti duas vezes no avião da Air France, na ida e na volta, a Les Miserables, de Tom Hooper, justamente pela recriação da Comuna de Paris, que já havia inspirado A Nova Babilônia, de Grigori Kozintsev e Leonid Trauberg, os criadores da FEKS, Escola do Ator Excêntrico. Sou capaz de ver cem vezes aquelas cenas da Comuna e a apoteótica canção final, com sua crença (esperança) de que outro mundo (um avenir?) seja possível. Vi também um pedaço de As Aventuras de Pi, só para tirar a teima, e não dá nem para a saída, em comparação. Academia de bosta. Desisti do Ang Lee e assisti a… Tãtãtã! Spirit, a animação da DreamWorks. Para quem ama westerns como eu, foi um sonho. Aquele cavalo, o mustang, é a representação da liberdade, como Les Miserables faz um veemente discurso pela igualdade e pela fraternidade. A identificação do cavalo com o índio e vice-versa, a mediação que a fêmea (a égua) faz na aproximação de ambos, se já havia gostado nantes, gostei muito mais. Vou estender o post, já que entrei nessa de liberté, egalité, fraternité. A França está fodida, me desculpem, como nunca vi. Recorde de desemprego, gente pedindo esmola na rua, assaltos – Elaine Guerini e eu fomos almoçar com o povo da Unifrance na cúpula de Pintemps, o magazin, e tomamos um susto ao quase sermos atropelados pelo garoto que corria  com uma bolsa na mão e duas mulheres vinham atrás aos gritos, desesperadas. Este é o quadro, e nele, entre uma porrada e outra em François Hollande – até os apoiadores andam decepcionados -, a imprensa tem dado espaço para uma discussão que extrapola a estética do cinema. La Palme de la souffrance. Fui dos que, desde a primeira hora, se impressionaram com A Vida de Adèle, de Abdellatif Kechiche, mas depois, em Paris, entrevistando atores, diretores, me surpreendi com o grande debate que divide os franceses em geral e os do meio (cinema), em particular. O cinema francês está clamando por uma nova convenção de trabalho. Ninguém vai ver um filme pelo iluminador, pelo cameraman, mas a disparidade de salários entre os astros e estrelas e os técnicos está beirando o escândalo – como eles dizem, absurdos salariais dignos de Terceiro Mundo. Abdel Kechiche foi para o centro desse debate como o emblema do diretor autoritário. Durante cinco meses, ele submeteu suas atrizes, Adèle Axerchopoulos e Léa Seydoux, a um regime draconiano e os técnicos, então, eram escravos no set, e por salários que tocavam o mínimo dos acordos trabalhistas. Surgiram até histórias de que, nesse processo de descoberta do corpo, Abdel teria forçado Léa a a outra Adèle, a real, a irem a um velcro além da aparência, o que elas negam. Os fins justificam os meios? A Palma do sofrimento, recompensada pelo júri de Steven Spielberg, fez história em Cannes e ele atribuiu o prêmio ex-aequo a um filme (A Vida de Adèle) e a suas atrizes, uma coisa que nunca havia ocorrido antes. Queria informá-los desse debate que inflama a França. Com ele, voltaram à tona histórias que não conhecia e que me deixaram chapado, como os abusos – físicos e até sexuais, segundo consta – a que Robert Bresson submeteu Anne Wiazemsky em Au Hazard Balthazar, A Grande Testemunha. Marie Schneider também sempre se queixou da violência física que sofreu sob Bernardo Bertolucci e Marlon Brando, no set de Último Tango em Paris. Essas coisas terminam esquecidas. Fica só a aura de certos filmes. A própria Kim Novak foi a Cannes dizer como Alfred Hitchcock era maravilhoso, certamente se esquecendo da tirania do mestre do suspense no set de Vertigo, Um Corpo Que Cai. Kim não era a primeira escolha de Hitchcock e só pegou o papel por desistência de Vera Miles, que era quem quem ele queria. Diz a lenda que o cineasta tratava sua estrela a pontapés e até fez com que Kim se atirasse n’água, ela que não sabia nadar, numa cena-chave. Houve um minuto de tensão antes que James Stewart a resgatasse, e o mestre, um pouco por crueldade, teria feito repetir a cena ‘n’ vezes. Essas coisas se esquecem. Fica só o ‘resultado’, e é isso que conta neste mundo global, não? Le Monde sintetizou o espírito da coisa dizendo que Kechiche, humanista na tela, não é muito humano no set.

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