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Horizontes de grandeza

Luiz Carlos Merten

29 de dezembro de 2013 | 12h51

Levantei-me hoje, tomei banho e, automaticamente, antes de sair para o café, dei uma zapeada na TV paga. Estava começando Da Terra Nascem os Homens/The Big Country, de William Wyler. Horizontes de Grandeza – em toda a América espanhola. Não me mexi mais e fiquei plantado diante da TV até o fim. O que me encanta tanto no superwestern de Wyler? Em princípio, seria um filme do qual não deveria gostar. Nada da simplicidade direta, da pureza de Budd Boetticher e Anthony Mann. Por volta de 1958, o western transferira-se para a TV. Mas foi o ano de The Big Country e, no ano seguinte, Howard Hawks fez Onde Começa o Inferno, Rio Bravo. Hawks fez seu western contra Matar ou Morrer, de Fred Zinnemann, um dos filmes mais incensados – exageradamente, até – de Hollywood. O espectador que vê hoje esses filmes talvez não saiba, mas, na segunda metade dos anos 1950, Hollywood estava fervendo. O fim do macarthismo não acabara com as listas negras. E se Zinnemann fez de Matar ou Morrer uma metáfora da era de delações de McCarthy, Wyler, em 1956, viu-se no centro de uma polêmica só resolvida 40 anos mais tarde. Naquele ano, Wyler fez Sublime Tentação, que ganhou o Grand Prix (ou já era a Palma de Ouro?) em Cannes. Um dos roteiristas era Michael Wilson, que estava na lista negra. Wyler não queria lhe dar crédito sozinho porque, segundo ele, o script de Wilson foi reescrito por outros dois. Mas ele queria o crédito tríplice. O estúdio, a Allied Artists, aproveitou-se da polêmica para lançar o filme sem crédito de roteiro – que só foi restabelecido em 1996, postumamente para Wilson. O escritor levou Wyler e o estúdio à Justiça, por reparação. Foi um incidente que maculou a reputação de liberal de Wyler, e ele se havia comportado dignamente durante o macarthismo. A lista negra só acabou em 1960, quando Otto Preminger e o ator e produtor Kirk Douglas bancaram o nome de Dalton Trumbo nos créditos de Exodus e Spartacus. Já contei que comprei um novo livro sobre Wyler. Tem o nome dele, o autor é Gabriel Miller e a editora é a The University Press of Kentucky. Para ser exato, chama-se William Wyler: The Life and Films of Hollywood’s Most Celebrated Director. Miller faz uma releitura muito interessante do cineasta sem estilo, e apolítico. A reputação de Wyler foi fundada no uso da profundidade de campo e na sua vocação de narrador que, anonimamente, servia às histórias que queria contar. Miller analisa a mise-en-scène de Wyler, filme por filme, para acabar com a balela do diretor sem estilo. Da mesma forma, os roteiros eram psicológicos, centrados nos personagens. A análise agora é rigorosamente política. A tal psicologia dos personagens ganha outra dimensão, ou perspectiva. No pós-guerra e, mais ainda, no macarthismo e após, a obra de Wyler é rigorosamente política. Reflete as transformações da sociedade norte-americano, dramatiza os dilemas do liberalismo e do pacifismo, condena o corporativismo e o consumismo. Tudo isso é verdade e o que me encanta em Da Terra Nascem os Homens é justamente o estudo da paisagem e dos personagens, o que representam. Nenhum outro filme de Wyler opõe tanto planos à distância com outros próximos – toda a memorável luta de Gregory Peck e Charlton Heston, ou o duelo entre Burl Ives e Charles Bickford no cânion. A solidez de Peck, a transformação de Heston – e a sua decisão de cavalgar com o Major, no confronto final, mesmo não concordando com ele. É uma coisa de Shakespeare. E pensar que Heston não queria fazer o papel. Depois de Os Dez Mandamentos, virara astro. Não queria um papel inferior ao de Peck. Foi seu agente quem o convenceu, dizendo que só um louco recusaria um papel oferecido pelo mais prestigiado diretor de Hollywood. Heston voltou atrás, aceitou e Wyler, na sequência, fez dele o seu Ben-Hur. Wyler, que sempre adorou os interiores, os conflitos entre quatro paredes – Jezebel, Pérfida, Tarde Demais, Chaga de Fogo etc -, faz agora da amplidão do espaço um palco de tragédia. O Major e o patriarca Hennessey lideram clãs detestáveis, mas Burl Ives, no limite, provoca compaixão por sua intransigência, quando mata, por imperativos éticos, o próprio filho. Nada redime o Major, exceto, talvez, a sua decisão de marchar para a morte com mais honra que teve em qualquer momento anterior. E o filme tem a partitura de Jerome Morros. Mal posso esperar para zapear e ver de novo o testamento de Wyler sobre o western.

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