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Homens de preto e o quarto estado da água

Luiz Carlos Merten

19 de dezembro de 2018 | 09h12

Tinha ontem duas possibilidades de espetáculos de teatro para ver – Violento, no Sesc Consolação, e O Quarto Estado da Água, no Teatro dos Parlapatões. Não frequento a Praça Roosevelt, havia um problema de horário – teria de correr para o primeiro, que era às 8 da noite. Terminei optando pelo segundo, às 9, e também havia o adicional do nome de Kiko Pissolato no elenco. Kiko é o Doutrinador, foi o Tião da (re)montagem de Eles não Usam Black-Tie. Tive uma gratíssima surpresa assistindo a O Quarto Estado, e no final houve um debate, o que me permitiu conhecer a diretora Bia Szvat. Três homens de terno preto no palco, representando… O poder? O mesmo homem? Impossível, para quem trabalha com cinema, não pensar em Quentin Tarantino. Reservoir Dogs, Cães de Aluguel. Se a água tem três estados e o título levanta a questão de um quarto (estado), então aqueles três homens, nas suas brincadeiras, também estão sugerindo alguma outra coisa sobre gêneros. Talvez não sejamos apenas masculino, feminino e alguma coisa mais. Heteros e homos. Cis(genders) e trans. Os três atores, não apenas Kiko, mas também Anderson di Rizzi e Herbert Richers Jr., são ótimos e a peça tem acompanhamento musical ao vivo. Concentrei-me no cara do acordeon, de quem estava próximo, muito expressivo, mas de quem esqueci o nome – sorry -, e na garota do cello porque, afinal, era a única mulher em cena. O Quarto Estado da Água encerra hoje a temporada de 2018 – há expectativa de que volte no ano que vem, se não naquele mesmo espaço, em outro. Gostei de ver, e recomendo. É outro dos ‘meus’ espetáculos do ano. O cinema de Tarantino fundamenta-se na violência. Bia Szvat e seu elenco, construindo a tensão física, a brutalidade dos machos, buscam a ternura, o afeto. Três homens de preto, de terno, trânsfugas de uma festa. Por momentos, são um pai e dois filhos, mas também macho e fêmea. É curioso como essas questões de gêneros ainda perturbam. O coiso elegeu-se com um discurso homofóbico e violento, e agora está querendo governar para todos os brasileiros, mas com a família sob suspeita e o ministério que montou… Jesus! (Ainda está na goiabeira? Venha nos assistir, Senhor.) O espetáculo, com apenas 1h10, tenta dar conta do estado das coisas, do mundo. O Quarto Estado da Água teria feito sucesso integrado ao recente Mix Brasil Festival da Diversidade. E Bia, num palco despojado, trabalhando apenas a luz e sacos de água pendurados por fios, cria efeitos belíssimos. Os caras balançam os fios e ficam desviando da água, só isso. Jogam baldes de água no palco e Herbert evoca Gene Kelly, (cantando e) dançando na chuva. A água como um signo do feminino? A bolsa de líquido na qual as mulheres carregam seus bebês. A vida. Viajando, que é o que eu sempre faço, cheguei a Walter Hugo Khouri. As Deusas, de 1972. Kate Hansen e Lilian Lemmertz naqueles jogos eróticos, na água. Fornecem, no meu imaginário, um contraponto e tanto a esses homens de preto. Já havia salvado, mas voltei ao texto. Acho injusto não falar especificamente do Anderson di Rizzi. Ator de TV e cinema, sei, mas não sei como, que foi jogador de base (da Ponte?). Foi ele quem trouxe a conversa sobre futebol para o debate, ajudando a explicitar como a dramaturgia foi construída com Flávio Cafiero e a diretora.

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