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Homem Errado?

Luiz Carlos Merten

29 Julho 2018 | 10h41

Na sexta fui à cabine de imprensa de Troca de Rainhas, puta filme bom de Marc Duigan, adaptado do livro de Chantal Thomas, que já integrara a programação do Festival Varilux. E ontem à tarde fui ao Cinesesc, no Festival de Cinema Latino-Americano, para assistir a O Caso do Homem Errado. Em janeiro, fui massacrado num debate em Tiradentes como antifeminista e anti sei lá o quê. Posso até gostar de fazer piadas incorretas, mas, na chamada grande imprensa, tenho consciência de ser uma reserva no debate de questões graves, ajudando a dar voz a autores que discutem o Brasil como ele é. Em Brasília, há dois anos, atrelado aos compromissos do júri, fui talvez o primeiro a falar sobre um documentário que não estava na competição, Cabelo Bom, de Swahili Vidal – espero ter escrito direito o nome – e Cláudia Alves, a que assisti, depois, de novo, no Cine PE do ano passado (ou terá sido em Gramado?). O filme documenta a relação de mulheres negras com o cabelo, como afirmação de identidade, desmontando o velho estereótipo da ‘nega do cabelo duro’ da música. Cabelo Bom integra a seleção de curtas de diretores e diretoras negros e negras que o Sesc Ipiranga apresenta numa programação especial até 29/8. Mulheres, índios, negros, transgêneros, posso dormir tranquilo, porque ninguém faz tanta matéria para debater essas questões e o que ajuda, tenho certeza, é o meu respeito lúdico pela diversidade. Só não divulgo o que ofende o humano, o que me ofende. Nessa reta final de Deus Salve o Rei, tenho mudado minha agenda para não perder a novela de Nelson Adjafre, que termina amanhã, na Globo. Maravilha! Na terça estarei alforriado. Sword and sorcery, espada e bruxaria. Divirto-me muito, e até me emociono, com Deus Salve o Rei. O Caso do Homem Errado, de Camila de Moraes, diretora, e Mariani Ferreira, produtora executiva, inspira-se num caso célebre ocorrido no Rio Grande do Sul – em Porto Alegre -, em 1987. Houve um assalto com tiros e feridos. Um dos assaltantes foi ferido e jogado no carro da Brigada Militar. Um transeunte negro que se juntara à aglomeração para ver o que ocorria era epilético. Teve um ataque, caiu ao solo, e confundido com um segundo assaltante também foi jogado no fusca da polícia. Tomou porrada e chegou ao hospital morto a tiros. Foi executado no caminho. Ainda estava em Porto, quando isso ocorreu. Poderia ter sido entrevistado por Camila, porque o caso repercutiu muito, há 31 anos, como retrato do que já estava ocorrendo, se é que desde a abolição e até antes não foi sempre assim, com jovens negros pré-julgados pela cor da pele. O filme dá conta dessa barbaridade e dos procedimentos que foram feitos para legitimar a execução. Júlio César, a vítima, tornou-se o homem errado porque era um trabalhador, mas o filme discute algo muito forte, não sei se mais forte – talvez sim -, que é a legitimidade de se executar um preso ou suspeito, mesmo se ele fosse o homem ‘certo’. No Brasil atual, onde a insegurança está produzindo presidenciáveis e asseclas que defendem a tese de que ‘bandido bom é bandido morto’, O Caso do Homem Errado pode ser, e é, uma tremenda provocação. Tudo isso foi discutido com Camila e Mariani no fim da sessão, mas há um aspecto estético do documentário, a escolha do jeito de filmar as cabeças falantes que dão depoimentos – Jair Krischke, histórico defensor dos direitos humanos no Rio Grande, a jornalista Vera Barcellos, o irmão de criação de Júlio César, o Paulo Ricardo Moraes, etc, todos figuras que conheci em Porto Alegre e que já eram e permanecem, 30 anos depois, guerreiros nas lutas sociais -, que me pareceu muito interessante. O filme cria esse lugar da fala a partir de planos muito próximos, e até closes de rostos. Como se constrói a tensão? Tudo o que foi documentado pela imprensa da época, o fotógrafo de Zero Hora Ronald Bernardi, só aparece na reta final. A imagem reveladora é adiada para favorecer a força das palavras. Gostei muito, e são cineastas negras, que demoraram oito anos – oito! – para fazer seu filme porque ninguém queria botar dinheiro num projeto sobre racismo, feito por mulheres negras. O filme se assume como militante, obra de um coletivo e no que depender de mim terá divulgação. Já está tendo. Estreia na quinta, dia 2, em dois horários no Cinesesc. Podem anotar, e ajudar a promover.