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Homem à beira de um ataque

Luiz Carlos Merten

22 de julho de 2012 | 12h00

Sob uma aparência de calma, ando a ponto de implodir. Homem à beira de um ataque de nervos. Não gostei do Sokúrov e achei mistificação, essa coisa de grande arte, 1001 referências a artes visuais. E daí? Tenho visto muito, vejo sempre, teatro. Não é implicância com os coletivos (nem haveria motivo), mas ‘Isso te Importa?’ já me havia parecido muito meia-boca, além de quase nada comparado aos objetivos teóricos que, segundo o programa da peça, haviam norteado a proposição. Ontem, fui ver o ‘Bom Retiro 958 Metros’ do Grupo Vertigem. Achei muito interessante a parte ‘técnica’ – toda a logística da encenação ao ar livre, a iluminação, os microfones que funcionam, a ordem no caos de fazer um espetáculo em meio ao tráfego. Tudo bem, era sábado, pouco movimento na área, mas mesmo assim… Impressionante. A questão é – a serviço de quê? Já virou lugar comum, pelo que tenho ouvido, a crítica reclamar da inconsistência da ‘dramaturgia’. Perdão, mas para ser inconsistente é preciso uma base que criticar e  o texto que segura as elocubrações do diretor Antônio Araújo me pareceu, sorry, menos que nada. Sem dramaturgia também não existe interpretação. Estou até agora tentando definir o que vi. Senti-me como alguns de meus colegas de cinema. Eles reclamam da falta de inteligência dos blockbusters. Eu acho que a falta de inteligência é deles e que o ‘Batman’ de Christopher Nolan e o ‘Homem-Aranha’ de Sam Raimi e, agora, Marc Webber são muito bons. Diante de ‘Bom Retiro 958’, só vi a ‘técnica’ e a intervenção urbana me pareceu muito superficial. O maior mérito foi que o espetáculo me deu vontade de ir lá, de dia, e caminhar por uma região de São Paulo que desconheço. Como a maioria das pessoas, acho que já formei um certo número de estereótipos sobre o Bom Retiro – as costureiras bolivianas exploradas pelos coreanos e judeus (ou são só os coreanos que as exploram em seus ateliês?). É complicado encarar essa questão das etnias e culturas e o espetáculo seleciona a fatia mais fácil – a faixa explorada é tão conhecida que parece nazista em filme de ação de Hollywood. É a maneira mais fácil de não polemizar com ninguém. De minha parte, sempre achei que a complexidade da questão vinha de uma observação feita por um desses estilistas que, no passado, vieram à Fashion Week. Alguém, e não me lembro se foi no ‘Caderno 2’ ou no ‘Jornal da Tarde’, teve a ideia de pegar um desses caras fodões e levou a um passeio pelos Jardins e pelo Bom Retiro. O cara achou a qualidade dos tecidos e das confecções mais apurada no Bom Retiro, mas os Jardins têm as grifes, as ‘etiquetas’ (e a burguesia endinheirada). Gostaria de ter visto algo mais complexo que aquele vestido vermelho como objeto de desejo, e de uma camada de excluídos. (Ah, sim, achei bons os momentos em que a encenação consegue inverter as posições e a ‘plateia’ vai para o palco, como naquela cena da escada, em que a gente fica num aquário e os atores é que nos observam. É a melhor. Repete-se parcialmente quando a costureira vem falar para a gente o que já havia dito, mais ou menos, na cena do shopping, mas aí o efeito é redundante, interrompido pela ordem de evacuação, porque senão o espetáculo não termina nunca.) Imagino que meus colegas de teatro, para terem gostado tanto – exceto os que, sabiamente, criticam a falta de dramaturgia; para os outros ela, parece não ter importância -, eles, os que amam, devem ter visto outra coisa, que não captei. Mas o esforço do Teatro de Vertigem é grande. Róliud cênica no Bom Retiro. De volta ao começo, são essas coisas que têm me exasperado e até deixado em dúvida. Tem horas em que sinto que não estou entendendo mais nada face ao que me parece uma mistificação avassaladora. Estarei precisando me reinventar, como se diz? Ou é essa ‘resistência’ que está um tanto (para não ser mais duro) equivocada?

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