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Holocausto brasileiro

Luiz Carlos Merten

15 Setembro 2013 | 13h39

Não dei sinal de vida depois da coletiva de Justin Timberlake, ontem, no Rio. Estou de volta a São Paulo, na redação do Estado, mas amanhã volto ao Rio para visitar o set de Trash e entrevistar Martin Sheen e Rooney Mara. Havia acho que mais de 100 pessoas na sala do Copacabana Palace. Achei que não conseguiria fazer nenhuma pergunta para o Justin. Foi o acaso, deem o nome que quiserem, que me favoreceu. Confesso que tento não ser preconceituoso, mas não tenho paciência quando a imprensa de celebridade entra em cena e participa com seu aproach de tapete vermelho. A coletiva foi ontem iniciada por uma garota da MTV que se embananou de tal maneira com uma pergunta idiota que o ator e músico não sabia como responder. Criou-se um impasse.  A guria insistia e ele, ‘hein?’ A assessora arrancou o microfone, eu estava na fileira de trás e ela me jogou o dito cujo com um apelo ‘Pergunta!’ Terminei abrindo a coletiva com duas das poucas perguntas que Justin Timberlake respondeu durante os minguados 23 minutos que durou seu encontro com a imprensa. Gosto do cara. Acho que ele é bom no cinema e tem trabalhado com autores importantes (David Fincher, Clint Eastwood, os próprios irmãos Coen, por que não?). A entrevista está no Estado de hoje, na cobertura do Rock in Rio. Já fiz minha matéria de amanhã – a entrevista com Ermanno Olmi, sobre o lançamento em DVD de Il Posto, que ele fez em 1961 e permanecia inédito, sendo resgatado agora pelo selo do Instituto Moreira Salles, em DVD.  Il Posto era um filme mítico para mim. Conhecia-o só de ouvir falar. Tomei um choque quando o vi em Cannes Classics. Então é isso – e ‘isso’ é um rigor e uma humanidade que me deixaram em choque. Estou em choque por outra coisa, também. Há tempos – semanas, meses? – que, em aeroportos, via o livro de Daniela Arbex O Holocausto Brasileiro, sobre o genocídio de 60 mil pessoas, internadas à força como loucas num manicômio de Barbacena que virou o símbolo da desumanidade do sistema manicomial. E eu que já havia chorado com o sofrimento infringido a Neto em Bicho de Sete Cabeças, de minha amada Laís Bodanzky… Namorava o livro da Daniela, mas estava sempre com outro e  terminava por não comprar. Comentei com meu amigo Dib Carneiro e ele deve ter sugerido como presente do aniversário que celebrei na semana passado. Não sei quem me deu, naquela confusão de abraços e pacotes, mas depois de Iacobus – sempre os templários -, já o devorei. A vida é sonho, dizia Calderón de la Barca, e uma das coisas que lamento em minha vida é não ter visto a montagem de Gabriel Villela com Regina Duarte. A vida é sofrimento, pensei lendo o livro da Daniela, sua dolorosa obra de não ficção (e o horror de tudo aquilo é real). Na verdade, acredito que a vida deva ser alguma coisa intermediária, cabendo a nós modificá-la, por nossos meios. A palavra holocausto ficou tão indissociada do genocídio de 6 milhões de judeus na 2.ª Guerra – e originalmente ela já designava um tipo de sacrifício em que a vítima era queimada – que parece excessivo empregá-la para o genocídio de ‘apenas’ 60 mil internos do Colônia, o hospital que era uma câmara de tortura no interior de Minas. Mas não é o Talmude que diz que uma vida resgata todas as outras, tendo sido esse o ponto para que Steven Spielberg fizesse O Resgate do Soldado Ryan (que nunca revi, e às vezes tenho vontade de fazê-lo)? São histórias terríveis de como, ao longo de décadas, pessoas foram internadas no Colônia sem diagnóstico, conhecendo ali um inferno digno de Dante. Não era necessário ser ‘louco’. Baderneiros, filhos indesejados, desafetos, um mundaréu de gente foi despachada para o Colônia, e ali morreu, caindo no esquecimento. É o que o torna essa tragédia brasileira pior que o Holocausto. As vítimas do nazismo estão nomeadas e existem incontáveis museus que resgatam não só os nomes como as histórias dessas pessoas (muitas, pelo menos). Daniela Arbex resgata poucas das 60 mil vítimas. A maioria não tem registro, permaneceu anônima na vida e na morte e, depois de todo sofrimento, até os cadáveres foram vendidos e retalhados, num macabro comércio da morte, envolvendo universidades respeitáveis. Helvécio Ratton fez um filme sobre o Colônia. Imagino que seria possível fazer 60 mil filmes. São histórias de terror. A que mais me calou fundo foi a de um garoto epilético internado aos 11 anos pela família e que morreu de tristeza. Ah, se Deus existisse… Lembram-se daquela música italiana romântica que fala num coro de anjos cantando o amor? Um coro de mil anjos seria pouco para conduzir esse garoto a um paraíso que desconfio que não exista.