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Hitchcock e a mulher que é preciso enterrar, Rebecca!

Luiz Carlos Merten

10 Setembro 2018 | 09h36

Jesus! Preciso me casar. Quatro peças e cinco filmes no fim de sermana prolongado, e isso que trabalhei na sexta e no domingo… Preciso de outras diversões, ou outros infernos. É cultura demais, principalmente no país de Michel Temer e Sérgio Sá Leitão, que estão dilapidando alegremente o patrimônio artístico e histórico brasileiro, como bem demonstram Jotabê Medeiros e Alexandre Sanches na reportagem As Cinzas do Golpe, na Carta Capital desta semana. Havia gente pelo ladrão na retrospectiva de Alfred Hitchcock, no MIS, no domingo à tarde, ou pelo menos assim me pareceu. Comentei com a monitora e ela me disse que não não. O domingo estava fraco. Agitada foi a sexta-feira. Mas eu não estava lá para ver a retrospectiva, que, por sinal, não cheguei a conhecer pronta, mas em montagem, para a matéria que fiz no Caderno 2. Fui para ver Rebecca, a Mulher Inesquecível, pelo qual o mestre ganhou seu único Oscar – de filme, não direção, e o Oscar pertencia muito mais ao produtor David Selznick, que permaneceu o tempo todo no set para garantir que o jovem Hitchcock, estreando em Hollywood, fizesse o que esperava dele, a ‘picturization’, como anuncia o crédito inicial, do romance de Daphne du Maurier. Havia visto Rebecca na TV, quando criança.(Re)Vi ontem outro filme. Que heroína interessante era Joan Fontaine. Diferia das loiras sexies de Hitchcock, mas havia algo naquela fragilidade masoquista, de sofredora, que chamava o sexo. E que belo homem era Laurence Olivier. Dá para entender porque Vivien Leigh e ele, dois animais eróticos, fizeram a festa no teatro e cinema ingleses. No mundo correto do #MeToo seriam hoje presos por atentado ao pudor, ou abuso, porque aqueles dois colocaram o teatro e o cinema ingleses na cama, mas, enfim, eram outros tempos. O que ou quem mais impressiona em Rebecca é Judith Anderson, como a governanta lésbica, Mrs. Danvers, reinventada por Pedro Almodóvar, na criação memorável de Rossy De Palma, em Julieta. Quase 20 anos antes de Vertigo/Um Corpo Que Cai, Hitchcock já antecipava Alain Resnais. Mrs. Danvers flagra Joan Fontaine no quarto da mítica Rebecca e lhe revela a mulher pelo seu ambiente. Os vestidos, a roupa de baixo, a escova de pentear, e ela repete o gesto como se ainda a estivesse penteando. É a grande cena do filme e, ao contrário do que Maxim/Olivier teme, Rebecca não venceu e a destruição de Manderlay por Mrs. Danvers vai enterrar de vez a mulher inesquecível. Manderlay, a mansão. Tara, em …E o Vento Levou. Tenho a impressão que, para o produtor, Rebecca interessou como possibilidade de retomada do clássico romântico de 1939. A casa, a mulher, ambas maiores que a vida. E George Sanders… Dez anos antes, Favell já colocava nas tela o cínico Addison DeWitt de A Malvada, obra-prima de Joseph L. Mankiewicz. Hitchcock voltaria outras vezes a Daphne DuMaurier. A Estalagem Maldita, Os Pássaros. A lady do suspense. Mas o suspense não é o forte de Rebecca. Nem o tal ‘gótico’. Talvez uma certa morbidez romântica, essa certeza de que um mundo vai ter de desaparecer, Manderlay, para que Maxim e a nova Mrs. de Winter/Joan possam recomeçar e ser felizes. Essa morbidez voltaria em Vertigo, no qual Scottie/James Stewart também precisa superar o duplo fascínio (mortal?) de Madeleine/Judy, Kim Novak, para seguir vivendo. Grande Hitchcock. Você acha que sabe tudo, já viu tudo e aí os filmes revelam camadas que não cessam de surpreender.