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Histórias de pais

Luiz Carlos Merten

06 de agosto de 2012 | 12h51

Tenho gostado bastante dos filmes do Festival Asiático que tenho visto na Galeria Olido. No sábado, havia me encantado com ‘Lovely Man’, Um Homem Adorável, de Teddy Saeriaatmadja, sobre garota que parte em busca do pai em Jacareta e descobre que ele é travesti. Há alguma coisa que me encanta no cinema indonésio e que passa justamente pela abordagem franca e até mágica (o que pode parecer paradoxal) do sexo. O pai está juntando dinheiro para fazer sua operação de mudança de sexo – e até roubou para isso -, mas no final se sacrifica pela filha numa cena que achei linda. Confesso que tenho necessidade da grandeza humana, e quando ela vem de personagens ‘pequenos’ me fascina mais ainda. O pai diz coisas como ‘Não existe certo e errado, apenas caminhos que a gente percorre.’ O curioso é que saí do Cine Olido, rumo ao Arteplex Itaú, no Shopping Frei Caneca – onde fui ver ‘Sagrado Segredo’ – e fui construindo toda uma história na minha cabeça sobre a relação do filme da Indonésia com ‘O Que Esperar, Quando Você Está Esperando’, de Kirk Jones, que os coleguinhas da ‘Folha’, segundo me contaram, acharam péssimo. Há ali, naquelas histórias de paternidade (e maternidade), alguma coisa que me emocionou, azar de quem achou banal. Ontem, de volta ao Olido, assisti ao ‘Filme de Oki’, na retrospectiva de Hong Sang-soo. Engraçado é que os quatro curtas com diferentes histórias sobre os mesmos personagens não apenas compõem uma narrativa unitária como ilumina o projeto metalinguístico do diretor – e até o novo filme dele com Isabelle Huppert, que vi em Cannes, em maio (e que me pareceu uma bobagem, ao contrário desse). O último curta, justamente o filme de Oki, em que ela narra a subida do monte com seus dois homens, o velho e o jovem, me produziu uma perturbação muito grande porque eu, de certa forma, me projetei no ‘velho’ e, ao sair da sala, topei com toda aquela garotada que ensaiava sua street dance nos corredores da galeria. É uma coisa que realmente me encanta, olhar aquela vitrine do clube da dança e dar uma olhada nos meninos da street dance. Aquilo é tão criativo. Outro dia minha filha colocou, acho que no Facebook, fotos delas quando criança. Em algumas, apareço com ela e o ‘Bolinha’, nosso inesquecível cocker spaniel. Lembrei-me da euforia de Emmanuelle Riva em ‘Hiroshima, Mon Amour’, a obra-prima (absoluta) de Alain Resnais. ‘Ah que j’ai été jeune un jour.’ Eu também fui jovem um dia, e magrinho, mas nunca fiz a ginástica mirabolante daquela garotada na Galeria Olido. O Festival Asiático continua. Espero ver hoje o 3-D japonês ‘O Terror do Coelho’, de Takashi Shimizu, no Frei Caneca. E amanhã tem a palestra de John Badalu, o curador da seção ‘Panorama Asiático’, dentro do festival.

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