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Histórias de mercado

Luiz Carlos Merten

25 de novembro de 2014 | 10h09

Em casa… Enfrentei ontem uma guerra no aeroporto do Rio, e outra no de São Paulo. O Santos Dumont foi fechado por razões meteorológicas, instalou-se o caos, que se refletiu em Congonhas, quando cheguei. Muita gente irritada, nervos à flor da pele e sempre uma maneira depreciativa de colocar a culpa no ‘Brasil’. Essas coisas me aborrecem, a autodepreciação, como se o mundo fosse um oásis e a terra da gente um deserto, quando não uma latrina. Cheguei em casa por volta de 4 da tarde, mal tive tempo de ir à padaria comer alguma coisa e me aguardavam as entrevistas de Os Amigos. Lina Chamie, Marco Ricca e Dira Paes, que enfrentou os mesmos problemas de aeroporto que eu e chegou mais tarde. Ainda houve a abertura da mostra italiana no Auditório Ibirapuera, e aí foi Maria Grazia Cucinotta  que não chegava nunca. O voo dela – da Europa – também teve problemas… Depois de uma hora de pé, caminhando e conversando (com Débora Duboc e Toni Venturi, e não por causa deles), o que mais gostaria seria de ter ficado no Rio, para ver o duplo da Semana, o curta de Tiago Mata Machado e o longa de Paula Gaitán. O curioso é que dividimos o táxi, Affonso Uchoa e eu, e ele corrigiu uma informação que tem saído aqui no blog. Ao contrário do que tenho escrito, A Vizinhança do Tigre está na mostra Cinema da Quebrada. Passa quinta, na Cinusp, e eu recomendo com entusiasmo. Conversava com Lina Chamie. O filme dela concorreu no Festival de Gramado do ano passado. Cheio de nomes conhecidos, o que poderia ser atraente para o público, demorou – quanto? – 15 ou 16 meses para chegar aos cinemas, mas chega, num circuito decente, senão grande. Serão 30 salas, bem mais do que a uma, em horário alternativo, que exibiu São Silvestre, do qual gosto mais, e a Lina sabe. De qualquer maneira, é muito mais que o Affonso e Guto Parente, com A Misteriosa Morte de Pérola, podem sonhar. Os filmes deles, como outros, quase todos, da Semana dos Realizadores, não têm distribuição, não têm circuito e A Vizinhança deveria entrar para ser, e seria com certeza, um dos meus melhores do ano. O nó górdio do cinema brasileiro continua sendo a distribuição. Mais de 1300 salas para Jogos Vorazes, mas se você vai reclamar para os exibidores eles dizem que, sem esses blockbusters para pagar as contas, não conseguiriam manter nem os horários alternativos para a produção nacional. Misturando as coisas, que é o que gosto de fazer, quero dizer que, no domingo à noite, no Espaço Itaú Botafogo, depois de três programas consecutivos da Semana, emendei Uma Promessa, de Patrice Leconte, que achei romântico, bonito. Richard Madden e Rebecca Hall amam-se, mas fazem a promessa do título e resolvem esperar pela morte do marido dela, Alan Rickman, que está terminal. A guerra os distancia mais ainda, o que seriam dois anos viram seis e a frase final é uma variação da que encerra Pickpocket, de Robert Bresson. Há uns três anos comprei na França um livro de entrevistas com Patrice Leconte, J’ Arrête le Cinema. Não é de hoje que Leconte ameaça parar com o cinema – mas continua a fazer filmes. Vai nisso um desencanto. Há muito tempo ele não tem projetos pessoais – tenho a impressão de que Uma Promessa é. Para não ficar parado, aceita encomendas, se envolve, mas os filmes não acontecem. O mercado está cruel, para o tipo de filme que ele gosta, na França também. Um Homem Muito Esquisito, O Marido da Cabeleireira, O Perfume de Yvonne. Hoje ele tem dúvidas se esses filmes aconteceriam do mesmo jeito. Na quinta, estreia Irmã Dulce, em grande circuito. Um grande filme popular. Vai acontecer? Espero que sim. É a melhor nessa onda de biografias filmadas que tem tubulado na bilheteria (Paulo Coelho, Tim Maia, Joaosinho Trinta etc) e mesmo que minha amiga Iafa Britz tenha estragado o filme de Vicente Amorim no final, com o acréscimo daquele documentário sobre a biografada real. Brinco, claro. Até aquelas imagens – quando virem, vocês vão entender – são emocionantes. O segundo encontro de Irmã Dulce com o papa tem outro significado – a troca de olhares agônicos dos dois, ela que se despede, ele que talvez antecipe a própria morte sofrida, é muito forte. Estou perdendo o fio da meada. Paro aqui. Na verdade, estou indo entrevistar Maria Grazia Cucinotta. Até.