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Histórias cruzadas, Domingos Oliveira e Tab Hunter

Luiz Carlos Merten

06 Maio 2017 | 12h47

Estou fazendo posts encadeados. O anterior terminava com a observação sobre o olhar do gay e do hetero sobre temas similares. Estou lendo simultaneamente dois livros, duas autobiografias. Domingos Oliveira, Minha Vida, da Editora Record, que saiu em 2014, e não me perguntem por que não li antes. E Tab Hunter Confidential – The Making of a Movie Star, do próprio Tab (com Eddie Muller) e a edição é da Algonqin Books of Chapel Hill – de 2005! Devo ter comprado em alguma junket nos EUA e esquecido. Domingos é sarrista profissional. Escreve com humor sobre coisas profundas. E ele teve – p… de ouro – todas aquelas mulheres maravilhosas. Lenita, Leila e, quebrando o L, Priscilla (mas ela tem dois lls dentro). O livro flui, fala de vida, carreira, cita Priscilla aqui e ali. Cadê essa mulher? Partes 10 e 11, Priscilla e Priscilla 2. Li, comovido, sobre o tempo em que estiveram separados. Gostaria que soubessem o prazer que me está dando essa leitura. Aos 71 anos, nunca é tarde para tomar lições de vida, mas cada um tem o seu manuel de autoajuda. Domingos se auto-ironiza – pergunta-se um dia se, a título de experiência, deve dar a bunda? Não dá, é hetero empedernido. Mas LSD ele toma. Vira outro homem, e expande seus horizontes como artista. Lucy in the sky with diamonds. E eu que nunca fumei nem um cigarro de maconha! Para a minha geração, isso é que era ser careta. Domingos encara a dor. A doença, o Parkinson. Reflete que sua melhor invenção no campo da forma teatral foi o cabaré filosófico. Fez quatro espetáculos desse tipo. E dizia sempre, no início, que duas leis permitem e viabilizam o cabaré. ‘A primeira é saber que a vida é feita do terror e da glória e que ali, por opção, não falaríamos do terror. A segunda é saber que a função da filosofia não é descobrir a verdade, mas divertir o filosófo.’ Grande Domingos – viver sem medo da própria sexualidade. Desafiar o senso comum, sem medo de ser chamado de alienado, como foi, no cinema, na época de Todas as Mulheres do Mundo. E, na Globo, não poder dirigir os próprios roteiros, porque era muito ‘pessoal’. Sobreviver a tudo para contar a história (e rir dos medos que teve, como o de perder Priscilla). Tab Hunter, pelo contrário, pertence à geração de atores que, nos anos 1950, Hollywood relegou ao armário. Era isso ou desistir da carreira. Galã ou morte! Rock Hudson foi o caso mais notório desses gays que não podiam se assumir. Hoje em dia, Tab acha graça. As pessoas ainda o confundem com Troy Donahue. Cumprimentam-no por A Summer Place, Amores Clandestinos, de Delmer Daves, de 1959, que tinha aquela trilha de Percy Faith. Viraram amigos, Troy e ele. E Troy dizia, o que nem sempre agradava a Tab, que eram a mesma pessoa, mas ele era o lado straight. Nos anos 1960, sem espaço em Hollywood, Tab Hunter foi para a Itália. Fez uma fantasia, sandal and sword, sandália e espada, que me encantou, na época. A Seta de Ouro, de Antonio Margheritti, não era nenhum Filhos do Trovão, de Duccio Tessari, com Giuliano Gemma, mas tinha seu encanto. Sem necessidade de ter ‘pegada’ – havia beijinhos, nenhuma cena hard de sexo -, Tab formou uma bela dupla com Rossana Podesta, e o filme ainda tinha a trilha de Mario Nascimbene. Tab conta como, levado por Tomas Milian, foi à mansão da Via Salaria, em Roma. Um convite para jantar do grande Luchino Visconti, que queria conhecê-lo. Criados servindo à mesa de luvas brancas e Visconti a observá-lo. Ele não sabia, mas estava sendo testado. No final, Luchino lhe disse que ainda não, mas trabalhariam juntos. Anos depois, chamou-o para Vagas Estrelas da Ursa. Tab Hunter fez todos os testes com Claudia Cardinale e Jean Sorel. Estava no céu. Em Nova York, assistira à estreia de Rocco e Seus Irmãos com Roddy MacDowall e depois voltara quatro noites consecutivas para ver, e chorar, sozinho com a morte de Nadia. Ser dirigido pelo grande Visconti -o papel seria o do marido de Claudia – era um sonho, mas aí o produtor inglês impôs Michael Craig. Luchino brigou por ele, mas sem o britânico não haveria filme. Sorry, Tab. A história teria sido diferente, se ele tivesse feito o filme? Tab Hunter talvez tivesse a mauvaise étoile. Em 1963, fez no teatro um texto de Tennessee Williams, com direção de Tony Richardson. The Milk Train Does’nt Stop Here Anymore. A estreia coincidiu com o assassinato do presidente John Kennedy. Não foi ninguém ao teatro. Uma, duas, três noites. Mesmo os poucos ingressos vendidos os que haviam comprado não apareceram. Tab escreve que a América, atônita, estava na frente da TV. Depois do assassinato do presidente, e do seu presumível assassino, ao vivo, ninguém queria perder a próxima vítima. Mas ele guarda, até hoje, como recordação – e mostra como imagem, no livro -, a mensagem que lhe enviou o autor. Tennessee diz que Tab foi uma das maiores surpresas de sua vida. Pelo que sabia dele, e havia visto de seus filmes, jamais poderia imaginar que fosse tão bom ator. O público nunca soube. A peça foi cancelada. Teria sido diferente? Como consolação, Richardson chamou-o depois para um pequeno papel – de coveiro – em O Ente Querido. Essa história do armário é f… Até hoje tem galã (global) lá dentro. E político. Vocês sabem, ou suspeitam. Dois livros, dois homens, duas experiências artísticas e humanas. Tab conta sua maior dor – o irmão, Walt, foi para o Vetnã. Morreu, com toda a sua divisão, em apenas dois meses. ‘Why him? Why not me?’ O irmão tinha família, ele não. Na morte da mãe, vieram os sobrinhos, Susie e Mike. Com a mãe, viveu brigado, até que, nos últimos anos, reaproximaram-se. Na morte, ela lhe deu uma família. Domingos não lamenta. Nem Tab. Nosso sofrimento, por maior que seja, é tão minúsculo face aos mistérios do universo. Estou adorando os dois livros, que devo terminar hoje ou amanhã. A arte da vida, vejam o chavão, é fazer do limão uma limonada. Sei bem disso.