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Hebe

Luiz Carlos Merten

30 de setembro de 2012 | 10h56

RIO – Aqui estou na sucursal do ‘Estado’. Desculpem-me, mas nos dois últimos dias tenho feito tantas entrevistas, e visto tantos filmes, que não tenho tido tempo de postar. Mas não vou começar o post por isso. Estou assistindo, pela TV, ao enterro de Hebe Camargo. A madrinha! Nunca fui um admirador irrestrito de Hebe e até lhe fiz duras críticas, a ela e ao seu programa, no antigo ‘Telejornal’. Naquele sofá, Hebe dava voz à brasileira média. Lembro-me de coisas que me provocavam irritação. Para uma mulher quer viveu a vida dela, num meio como a TV, Hebe muitas vezes encarnava a senhora de Santana e revelava um moralismo fajuto, não sei se é a palavra. É curioso, mas muitas vezes, quando vejo ‘Avenida Brasil’, a personagem de Eliane Giardini, Murici, me lembra o espírito de Hebe. Uma coroa sacudida, sexy, que corneava o namorado com o ex e está sempre desfiando um discurso moralista em defesa de ‘Carminha’ como representação da família e dos costumes. Acorda, Murici. Não digo que Hebe fosse isso, mas ninguém conseguiria expressar o senso comum se não falasse a linguagem popular. Em seu livro pioneiro, ‘A Noite da Madrinha’, Sergio Miceli analisou como ela expunha, com toda naturalidade, os pilares ideológicos da classse média brasileira. Talvez fosse por isso que o povo a amava, e ela era amada. Esse carinho foi manifestado ao longo de todo o trajeto para o cemitério, em carro aberto, com direito a bandeira do Brasil sobre o caixão. As pessoas aplaudiam nas ruas. É uma coisa que me emociona. Hebe faz parte do meu imaginário, desde que era criança. Não me lembro exatamente quando, mas foi nos anos 1950. Assis Chateaubriand havia inaugurado a TV no Rio Grande do Sul. Era garoto. Hebe cantava nas noites de domingo, num programa que era dela. Imagem em preto e branco, o cenário ainda não era o sofá, mas um galhos secos e uma espécie de bruma. Naquela época a programação era ao vivo. O telespectador que hoje assiste às novelas e especiais gravados não têm ideia de como o acaso, a falha técnica interferia no que a gente via. Imagino que Hebe chegasse no aereoporto e dali corresse para a TV. Mais de uma vez – juro! -, a imagem ficava vazia, por longos minutos, e de repente ela entrava esbaforida. ‘Quem é?/Que me cobre de beijos/satisfaz meus desejos/e que muito me quer?’ Era o seu carro-chefe naquele tempo, e mesmo que Hebe ainda não fosse apresentadeora/entrevistadora, ela já tinha facilidade para se comunicar, e falava muito. Olhando para a câmera, era como se olhasse no olho da gente. Conversava, muito com os técnicos, e aí se lembrava de que tinha de cantar mais um pouco. Ontem à noite, depois da Première Brasil, fomos jantar – Dib Carneiro está aqui -, no restaurante ao lado do Odeon, em plena Cinelândia. Conversamos com Marcos Bernstein, diretor do belo ‘Meu Pé de Laranja Lima’ e, à tarde, eu faço a mediação no debate sobre o filme dele. Na TV, sem som, Serginho Groisman entrévistava Hebe, trechos de um encontro dos dois em Lisboa, em maio do ano passado. Se morreu com 83 anos, Hebe já estava com 82. Ela era vaidosa – qual mulher não é? E por que achar que só mulheres são vaidosas? -, mas não se botocou, não virou um monstro irreconhecível, como tantas outras (e outros). A morte tende a nos fazer tolerantes, pode ser, mas achei exagerada a reação de alguém no Facebook, pelo que me contou o Dib. “Lá vai mais uma malufista. Que venha o próximo, a próxima.’  Hebe pode ter tido/cometido seus equívocos, mas viveu sua vida frente às câmeras. Como Elizabeth Taylor, seus últimos anos foram marcados por problemas de saúde e dificuldades para se manter no ar. O ódio, o ressentimento de uns, é dissonância, face ao amor de tantos. No final, como diria o Príncipe Salinas, ‘todos seremos o sal da Terra’.

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