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Hasta siempre!

Luiz Carlos Merten

27 Novembro 2016 | 00h24

Em que galáxia vivi hoje o dia todo? Na galáxia cinema, planeta Semana dos Realizadores. Em nenhum dos eventos de que participei – filmes, debate -, foi feita a menor referência à morte de Fidel Castro. Foi-se o ‘comandante’. Para muita gente – a canalha de direita -, ele era um anacronismo. Mas Fidel, que, por décadas, peitou os EUA, era a prova de que se pode lutar e vencer. E ter chegado aos 90 anos não representa pouca coisa. Apesar das múltiplas acusações de autoritarismo e violações dos direitos humanos, para a minha geração foi um símbolo – de resistência e humanitarismo. Neste momento de antibolivarismo acirrado, vale lembrar que ocupava o panteão com o mítico Che e com Salvador Allende, que tombou naquele 11 de Setembro. Fidel era muito ligado ao cinema, que considerava ferramenta eficaz para sua luta política. Criou o Icaic e a Escola de San António de Los Baños, o que levou Gabriel García Márquez a dizer que era o cineasta menos conhecido do mundo. Era amigo de dois grandes diretores cubanos, Santiago Alvarez e Tomas Gutierrez Alea. Com o segundo teve alguns atritos – assimilou a homossexualidade de Morango e Chocolate, que por muito tempo foi considerada ‘desvio’ em Cuba, mas nem tanto a crítica à burocracia de Guantanamera. Tornou-se amigo de Oliver Stone, que lhe dedicou dois filmes – Comandante e Procurando Fidel. Ao ‘gringo’, confessou que amava Brigitte Bardot, Sophia Loren e os filmes de Cantinflas e Carlitos. Tenho de parar um pouco para assimilar o significado dessa morte. Em Miami, claro, os contras devem estar fazendo seu carnaval. O próprio Fidel sabia que não era unanimidade. Não por acaso, escreveu aquele livro – A História Me Absolverá. O cinema talvez o tenha absolvido antes. Os filmes de Stone, o retrato crítico e geracional – Cuba cabe naquele terraço – que me encanta no glorioso Retorno a Ítaca, de Laurent Cantet.