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Harold e Harold

Luiz Carlos Merten

06 de outubro de 2013 | 11h57

RIO – Ontem foi o dia da feijoada do festival. Encontrei um monte de gente – José Carlos Avellar, Wielland Speck (do Panorama de Berlim), Alice Gonzaga, Elisa Tolomelli etc. Fora as entrevistas. Alain Guiraudie, finalmente encontrei o autor de Um Estranho no Lago e ele não me decepcionou, aleluia! Também Beeban Kedron, e foi um prazer falar com a  diretora de Bridget Jones, que apresenta aqui InReal Life, seu documentário sobre jovens na era da internet. À pergunta da diretora, o que te interessa na rede, o garoto, Ryan, de 14 anos, responde – ‘porn’. Pornografia. De tanto ver sexo na internet ele admite que isso estragou sua noção de amor e de como tratar as garotas. E aos dois gayzinhos que mantêm uma relação à distância, Beeban sugere que só amor platônico não dá. Encoraja-os a atravessarem o país, para se encontrar. InReal Life é um filme cheio de histórias, mas sua força é de um debate que a autora propõe – a internet, com suas redes sociais, está mudando o comportamento. Virou uma força gigantesca. Seus poderosos invocam a liberdade de expressão para que não sejam impostos limites, mas na verdade são os bilionários do planeta. A internet ia democratizar, só que quem é mesmo o cara mais rico do mundo…? Isso é uma coisa e a outra  – o jovem, na internet, não é estimulado a se tornar mais democrático. Pelo contrário, todo mundo tem opinião e é o foro para que muito reacionarismo ande solto, mas a grande advertência de Beeban é de que a internet está lançando o jovem mais cedo no consumo. Foi um papo ótimo para mim. Contei-lhe que não tenho celular, que cago para e-mails. Ela me disse então que devo ser muito importante para que as pessoas, o ‘sistema’, aceite minha idiossincrasia, porque um jovem sem celular nem e-mail é hoje morto para o mercado de trabalho (e consumo). É uma pergunta que vivo me fazendo, mas com ela, priomeira vez, verbalizei o assunto. De repente, conversávamos como velhos amigos. Ela chegou a me perguntar – ‘Por que estou te contando isso?’ Patricia Durães, Adhemar Oliveira, InReal Life seria valiosíssimo como ferramenta do Clube do Professor, ouçam o que digo. E, por fim, entrevistei Bruce LaBruce, velho militante gay, que me abriu sua fascinação pelo universos dos hustlers, os michês. Ele mostra Gerontophilia, que foi aclamado na mostra gay de Veneza. Um garoto descobre que tem tesão em velhos. Vai trabalhar num asilo, foge com um velho gay de 80 anos. Harold e Harold, não mais Harold e Maude. Tirando uma cena de sonho, em que o garoto lambe as feridas do velho, o filme é bem terno. O garoto é straight, o velho é gay. Pelo que LaBruce me contou, a filmagem daria outro filme. E seria, talvez, melhor.

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