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Green Book! Conduzindo Miss Daisy às avessas vai dar segundo Oscar a Mahershala Ali

Luiz Carlos Merten

24 Janeiro 2019 | 09h17

PORTO ALEGRE – Cá estou. Cheguei ontem no início da tarde e já corri para a Cinemateca Capitólio para assistir a um John Ford que não via há tempos – décadas! Paixão dos Fortes, My Darling Clementine. Tive um choque ao rever as paisagens de Monument Valley, que conheci, anos atrás, numa viagem com Dib Carneiro. Era um dos sonhos da minha vida – conhecer aquele solo sagrado do cinema. Foi mágico, outros tempos. Mas vamos por partes. Nesta quinta estreiam nos cinemas dois filmes do Oscar, A Favorita e Green Book – o Guia. No outro dia indaguei-me se Roma, campeão de indicações nessa 91ª edição do prêmio, não voltará aos cinemas? Em Porto, está voltando, e terá sessões no Capitólio na sexta, 20 h, e no domingo, 18 h. E em São Paulo? Alô-alô Vitrine-HBO… Green Book! Considerando-se que Roma tem, entre suas dez indicações, as de melhor filme, melhor filme estrangeiro e direção, as apostas são de que Alfonso Cuarón leve a estatueta da categoria e a de filme em língua estrangeira. Como são votações separadas, existe a possibilidade (remota) de que Roma vença melhor filme nas duas, mas é mais provável que seja contemplado somente como filme estrangeiro, abrindo caminho para a dissociação dos prêmios principais. Como a Academia adora os musicais, Nasce uma Estrela e Bohemian Rhapsody têm chances, diria até que mais o primeiro, já que o diretor Bryan Singer, do segundo, andou enrolado em acusações de assédio. Mas a verdade é que o prêmio do Sindicato dos Produtores aponta para Green Book, e eu gostei muito do filme de Peter Farrelly, a que assisti na terça à noite, antes de viajar. O problema é que, na disputa do prêmio da Academia, o filme do irmão Farrelly está unindo todo mundo numa sinfonia de acusações (e polêmicas). O filme reconstitui a segregação racial dos anos 1960, e Viggo Mortensen foi crucificado por usar numa entrevista o termo ‘nigger, que é considerado pejorativo e, segundo ele, usou justamente no contexto de se referir à terminologia da época. O roteirista Nick Villalonga fez um tuíter em 2015, apoiando o então candidato Donald Trump, que no afã de resgatar a grandeza da América prometia aplicar um corretivo nos muçulmanos que teriam comemorado o ataque às torres gêmeas, em Nova Jersey, em 2001. Lá, como aqui, eleição se ganha com fake news, é a nova regra do jogo. Para completar, ressurgiu a história de que Peter e o irmão Bobby adoravam brincar, mostrando os pirulitos, aqueles, às equipes de seus filmes. Tudo isso está derrubando Green Book e não adianta Peter Farrelly se desculpar pelos erros da juventude, nem os amigos lembrarem que Viggo é um dos caras mais conscientes da indústria. Guerra é guerra e, para completar, a família de Don Shirley, o pianista da história, veio a público dizer que nunca houve um Villalonga, o motorista branco, embora Nick afirme haver ouvido a vida toda esse relato de seu pai, daí o crédito do início – baseado numa história real. Espero não acrescentar mais incorreção com o que vou dizer. Vendo um desses filmes sobre judeus perseguidos pelo nazismo, pensei como o Holocausto será sempre um flagelo a atormentar as consciências, porque todas as histórias, mesmo as chamadas ‘menores’, são sempre terríveis, pelo que revelam da capacidade humana de humilhar e fazer o mal, dentro da cadeia de poder que tornava impune todo aquele absurdo. Não sei se cabe comparação, mas, da mesma forma, vendo o filme sobre as matemáticas negras da Nasa, pensei como as pequenas humilhações podem ser dolorosas e, por isso mesmo, Holocausto e outras discriminações raciais são fontes inesgotáveis. Sempre haverá uma história nova, um ângulo novo para abordar. Não esgotei minha capacidade de chorar com esses dramas que permitem revisar a grande história. Green Book é sobre um brutamontes italiano (Viggo) que aceita ser o motorista de um pianista negro (Mahershala Ali) que vai excursionar pelo racista Sul dos EUA. Já se disse – uma espécie de Conduzindo Miss Daisy, que venceu o Oscar, às avessas. Viggo, ou Tony Lip, Tony Bocudo, é boa gente mas esquentado. É o rei da porrada e, logo no início, preconceituoso, joga no lixo os copos com que a mulher deu água aos trabalhadores negros que foram fazer um conserto na casa. O próprio Tony sofre preconceito – é o ‘carcamano’ – e passa o filme cobrando de Don/Ali porque, como artista erudito, ele não se identifica com ‘sua gente’, dessa forma designando artistas negros mais populares (como Little Richard e Aretha Franklin). Don pode ser aplaudido por plateias brancas, mas não come à mesa nem usa o mesmo banheiro que elas. Viggo é ótimo, mas Mahershala Ali é excepcional. Gênio! Vai levar seu segundo Oscar ( o primeiro foi por Moonlight – Sob a Luz do Luar, de Barry Jenkins). Tony mete o braço – em defesa de Don ou dele próprio? Entra um lance de sexo, e foi para mim o mais emocionante dessa história toda. A compreensão do brutamontes pela complexidade da vida (e das pessoas). Não entro em detalhes, porque não fazia a menor ideia de que aquilo ia ocorrer, mas é o que, no fundo, explica a transformação de ambos, de Tony e de Don (e o agradecimento que a mulher do primeiro sussurra no ouvido do segundo). Bonito filme, e não totalmente inesperado, de parte de Peter Farrelly. Incorretos em Debi e Lóide e Quem Vai Ficar com Mary, o irmão e ele já haviam mostrado ser uns manteigas derretidas – lembram? – em O Amor É Cego. Daí ao filme ‘sério’, mesmo que só de um, foi um passo, mas que demorou anos. O amadurecimento?