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Grandeza de um derrotado

Luiz Carlos Merten

27 de junho de 2016 | 10h48

Em primeiro lugar preciso fazer uma correção. A gerente do Cedoc da Globo não é Rita Guedes, a atriz, mas Rita Marques. Sorry, Rita, mas achei muito interessante a mesa sobre novas perspectivas no restauro de material audiovisual televisivo. Queria propor uma entrevista grande com foco na Olimpíada (e a indexação/catalogação que o Cedoc fez de todo o material contando a história dos jogos na emissora, aproveitando que a gerente disse que 7% da programação diária da Globo tem material de arquivo, um índice bem alto), mas terminei fazendo um texto sobre a mesa do Cine OP na edição de hoje do Caderno 2. Espero que uma coisa não inviabilize a outra, vamos ver. A assessoria do Cine OP também me informa que o evento de que participei, anos atrás, na cidade, com Jotabê Medeiros, foi o Fórum das Letras. E agora Lima Barreto. Havia citado, num post anterior, justamente sobre efemérides no Portal do Estado, o material que havia feito sobre os 110 anos de nascimento de… Billy Wilder. Esqueci-me quem era o cineasta e ao pesquisar na rede diretores que nasceram em 1906 um dos primeiros nomes que me veio foi o de Vítor (Victor) Lima Barreto, o cineasta, não o escritor. Nasceu em 23 de junho, e portanto, na semana passada, se completaram 110 anos de seu nascimento (em Casa Branca, São Paulo). Morreu em Campinas, em novembro de 1982, aos 76 anos. Se procurar na Wikipédia você encontra que foi um autodidata que começou a fazer cinema nos anos 1940, curtas como A Dama das Bromélias e Fazenda Velha, que não conheço. Na Vera Cruz começou com um documentário curto sobre artes plásticas, e até onde me lembro Painel, sobre o Tiradentes de Cândido Portinari, era bem bonito. Em 1953, fez história quando O Cangaceiro, que dirigiu na Vera Cruz, foi premiado em Cannes. Naquele tempo, ainda não havia Palma de Ouro e, só para lembrar, o júri (presidido por Jean Cocteau e integrado por Abel Gance, Edward G. Robinson e Charles Spaak, entre outros) atribuiu o Grand Prix a O Salário do Medo, de Henri-George Clouzot. Os demais prêmios foram chamados de ‘internacionais’, com menções para a música (O Cangaceiro), o roteiro (Bienvenido Mr. Marshall, de Luís Berlanga), o melhor filme de divertissement (Lili, de Charles Walters), o melhor de aventuras (O Cangaceiro, de novo) etc. O filme fez carreira no Brasil e no exterior, mas como a Vera Cruz era só empresa produtora, sem sistema próprio de distribuição, O Cangaceiro foi distribuído internacionalmente pela Columbia, que ganhou um monte de dinheiro. Pouco antes que Nelson Pereira dos Santos, com Rio 40 Graus e Rio Zona Norte, e Roberto Santos, com O Grande Momento, criassem o neo-realismo à brasileira, a Vera Cruz desenvolveu aquele projeto de cinema industrial, narrativo. Criticado pela geração do Cinema Novo, Lima inaugurou o nordestern, filmando, no interior de São Paulo, seu faroeste sobre a saga do cangaço. Numa vertente oposta ao que viria a ser a estética da fome, a fotografia de Chick Fowle é muito influenciada pelos claros/escuros e pelo paisagismo telúrico do mexicano Gabriel Figueroa, embora o mestre de Lima Barreto fosse John Ford (que, aliás, trabalhou com Figueroa). Faz tempo que não vejo O Cangaceiro, mas, até onde me lembro, como relato ‘clássico’, alguém diria acadêmico, é bem rigoroso, mesclando drama e fortes elementos musicais e plásticos (diálogos de Rachel de Queiroz, figurinos de Carybé, música de Gabriel Migliori, com a canção Muié Rendera, interpretada por Vanja Orico e, sim!, Demônios da Garoa). O romance do cangaceiro Teodoro com a professorinha Olívia, Alberto Ruschel e Marisa Prado, e a persona violenta do ‘Capitão Galdino Ferreira’, Milton Ribeiro, constroem cenas vigorosas e o desfecho seguia na contracorrente dos westerns da época, com a morte honrosa do herói. Até onde sei, Lima Barreto tinha um gênio difícil e isso foi afastando os produtores, impedindo-o de realizar o que seria o filme de sua vida, O Sertanejo. Ele fez só mais um longa, A Primeira Missa, no começo dos anos 1960, sobre Bentinho, o filho da lavadeira, cujo mentor é um ateu (Dionísio Azevedo que, no ano seguinte, seria o padre intransigente de O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, Palma de Ouro em Cannes), mas que, possuído pela fé, realiza o sonho de virar padre. Fecho os olhos e me vêm as imagens do menino, cujo nome não lembro – teria de pesquisar – e de Margarida Cardoso, como a mãe, que tinha um nome estranho, que guardei, Nhá Colaquinha. Margarida era atriz de teatro, poderosa, fazia composição. É curioso, mas a lembrança que tenho dela é de uma sertaneja de Portinari, mas pode ser influência de Seara Vermelha, que fez, na sequência, com Alberto D’Aversa. A Primeira Missa não repetiu o sucesso de O Cangaceiro, Lima Barreto casou-se com sua atriz, Araçari de Oliveira. Separaram-se, ele caiu na gandaia, virou boêmio profissional e morreu pobre. Sempre ouvi dizer, e acho uma história linda, que Glauber Rocha, tão duro com o cinema de Lima Barreto, foi visitá-lo em seu leito de morte, oferecendo ajuda. Lima Barreto deixou roteiros que foram filmados por Anselmo Duarte (Quelé do Pajeú) e Walter Lima Jr. (Inocência, que o diretor dedicou a Humberto Mauro). Walter Lima também usou um argumento de Lima Barreto para fazer Ele, o Boto (e tenho pensado no filme por conta da trajetória de Carlos Alberto Riccelli, tão bom no filme de Tata Amaral, Trago Comigo). Pode ser que me engane, mas construí na minha cabeça a imagem de Lima Barreto como um personagem fordiano. A grandeza dos derrotados, por aí. Ele me parece sempre esquecido, como Tom Doniphom/John Wayne em O Homem Que Matou o Facínora. Descobri os 110 anos de seu nascimento por acidente. Passariam em branco. Faço o registro, porque acho que ele merece.

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