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Grand Splendid

Luiz Carlos Merten

20 Dezembro 2014 | 13h08

BUENOS AIRES – Fomos 0ntem a El Ateneo Grand Esplendid, a segunda livraria mais bela do mundo, e eu aproveitei para comprar mais livros de cinema, incluindo uma história atualizada do cinema britânico e um Bioy Casares Va al Cine, que já comecei a devorar. Descubro que justamente o Grand Splendid, que já foi a sala mais luxuosa da cidade, foi o templo de memoráveis experiências do escritor no cinema. Alguns dos filmes que o marcaram fazem parte do meu imaginário. Psicose/Alfred Hitchcock, Lord Jim/Richard Brooks. Lembro-me que foi aqui mesmo, em Buenos Aires, há mais de 40 anos, que comprei Um Oficio del Siglo 20, com as críticas de Guillermo Cabrera Infante, ainda sob o impacto da sua contribuição como roteirista, sob o pseudônimo de Guillermo Caín, para um dos meus filmes faróis daquela época – Vanishing Point, Corrida contra o Destino, de Richard C. Sarafian. Tenho belíssimas recordações de cinema daqui. De Buenos Aires, de Montevidéu. Foram as minhas cinematecas. Morando em Porto Alegre, era muito mais fácil vir aqui e, depois, embora Argentina e Uruguai também vivessem sob ditaduras, eles tinham uma tradição de cultura cinematográfica muito mais forte que a nossa e os filmes censurados no Brasil – muitos, pelo menos – passavam nessas ‘pantallas’. Mas a Buenos Aires da minha memória é cada vez mais aviltada pela realidade. A cidade sempre teve um charme europeu, decadentista, mas está mais decadente ainda. Há muita pobreza, gente estendendo a mão, o que não se via antes. Mas é curioso, quando percebem que somos estrangeiros, e brasileiros, volta a altivez e as mãos são recolhidas. Os velhos cafés, símbolos de civilidade, hoje são de rede. Starbucks, McCafé. Mas existe a El Ateneo. Sentamo-nos ontem no café, tomei um mojito, havia um pianista ao vivo. Por um momento degustei minha madeleine e viajei no tempo, voltando aos meus tempos de descoberta da latinidade.