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Gramado (16)

Luiz Carlos Merten

18 de agosto de 2014 | 10h18

PORTO ALEGRE – Havia prometido a mim mesmo um último post sobre o Festival de Cinema Brasileiro e Latino – que júris mais loucos, credo -, e o tema só poderia ser Carta a Uma Jovem Cineasta. Num daqueles meus rompantes, escrevi que valeu a pena ter ido à cidade serrana do Rio Grande só para ver os dois longas da Mostra de Cinema Gaúcho (Dromedário do Asfalto e Balões – Lembranças e Pedaços de Vida, ambos com cara de Tiradentes e Semana dos Realizadores) e o curta de Luiz Rosemberg Filho. No debate, Ivonete Pinto, da revista Teorema, levantou uma questão importante, que desconhecia. O filme de 25 minutos foi editado pelo montador para ficar com 19min59, dentro dos 20 minutos que são o limite de duração do formato para poder competir em Gramado. Quem estava na cidade era o montador e Gustavo Herdt admitiu, com toda honestidade, que, sim, remontou o filme, Rosemberg  ficou p… com ele (e nem se falam mais). Levantei a questão de ordem se o filme é do cineasta ou do montador. Quem é o autor? O garoto disse que o filme, malgrado a rejeição do cineasta, é de Rosemberg, que o texto-manifesto foi mantido na íntegra e que o nó górdio foram as imagens editadas. Ivonete perguntou se o montador censurou os excessos do autor. Ele nem titubeou. Cortou, teve de cortar, e Rosemberg se sentiu traído, mesmo que – agora sou eu escrevendo – Carta tem pênis eretos e vaginas escancaradas, além de outras provocações (como uma frase chamando os ingleses colonialistas de pedófilos) como Gramado nunca viu, em 42 anos de festival. Gostei demais de Carta a Uma Jovem Cineasta, mais até do que de Linguagem, o curta-colagem anterior de Rosemberg, que Gustavo Herdt também montou (e foi premiado no Recife). Provoquei – ele melhorou o diretor? Não sei se Carta vai virar o I’s All True do cinema brasileiro, mas, ao contrário de Mark Robson e Robert Wise, que destroçaram o filme de Orson Welles, Gustavo aprimorou o de Rosemberg. Como dizer isso a um autor que se lixa para o mercado? O caso tem implicações éticas e estéticas que são muito complexas, mas eu amei. E o espírito 68 de Luiz Rosemberg Filho está todo lá, resguardado por seu agora (enjeitado) discípulo. Tudo bem que o Gustavo, como montador, está querendo mostrar seu trabalho (que é brilhante). Mas ele devolveu Rosemberg ao circuito dos festivais, tirou-o do ostracismo até crítico, porque quando se diz que o autor tem uns 20 desses filmes de colagem a pergunta é sempre – aonde, que ninguém vê? Gustavo deixou claro que o filme é expressivo do pensamento de Rosemberg, que resguardou. Existem coisas com as quais não concorda, mas que estão no filme porque não é dele. Cá comigo, gostaria que se reconciliassem. Estava sendo uma parceria muito boa.

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